Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

Cimeiras da Europa para europeu ver... same old bullshit

 Estava-se em 1939 e a Alemanha ia invadir a Polónia...

«Lá estava eu, um ser atento, pensante, trabalhando à margem de qualquer política, entregue ao meu trabalho, com esforço e em silêncio, dedicado a transformar em obras os meus anos de vida. E lá estava também, algures, uma dúzia de outros tantos homens, invisíveis, que não conhecíamos, que nunca tínhamos visto [...] e aqueles dez ou vinte homens, dos quais apenas apenas uma minoria tinha revelado até então uma especial prudência e habilidade, falavam e escreviam e telefonavam e pactuavam acerca de problemas que os outros ignoravam.
Tomavam decisões para as quais não éramos consultados e que não conhecíamos em pormenor, e assim iam determinando definitivamente a minha própria vida e a vida de todos os outros europeus. Era nas suas mãos e não nas minhas que o meu destino se encontrava agora. Eles destruíam-nos ou poupavam-nos, a nós, os sem-poder; eles permitiam-nos a liberdade ou reduziam-nos à escravidão, eles decidiam da guerra ou da paz de milhões de pessoas.
(...)
Mas, com lentidão enervante, a bola indecisa ia rolando para cá e para lá, na roleta da diplomacia. Para cá e para lá, para lá e para cá, preto e vermelho, vermelho e preto, esperança e desilusão, boas e más notícas, sem nunca vir a última, a decisiva.»

Stefan Zweig, O Mundo de Ontem - memórias de um europeu

Quinta-feira, Novembro 24, 2011

Quem gosta de estar "orgulhosamente sós" afinal

Logo pela manhã tínhamos um - mas podiam ser dois ou três visto que o discurso é comum - líder de uma central sindical regozijando-se por ter paralisado o País. "Os aviões não levantaram, os navios não acostaram nos portos nacionais, os comboios estão parados, o Metro está fechado, o parque industrial da Autoeuropa - responsável por 1/10 das exportações da produção portuguesa está paralisado, a adesão é a maior de sempre!". Dizem eles isto...

Digo eu: que orgulho do caraças!

Liberdade paisagística

Uma investigação científica rigorosíssima de especialistas estrangeiros descobriu a razão pela qual, nas últimas décadas, as rotundas se tornaram tão presentes na paisagem urbanística nacional.
Foi um agradecimento da classe política vigente, para dizer aos portugueses que viram no golpe de Estado a entrada num novo regime de "amplas liberdades e garantias", que andaram estes anos todos a ser ROTUNDAMENTE enganados.

Sexta-feira, Outubro 28, 2011

Marcar posição

«Todos os que temos, pela inteligência, pela voz do sangue ou simplesmente pelo instinto do coração, a consciência da nossa unidade e independência, da nossa grandeza passada, da nossa colaboração na obra civilizadora da Europa, sentimos - ferida aberta na alma - o riso mundial, a troça de povos em nada superiores a nós, a não ser na sua linha exterior, por causa da nossa incapacidade governativa, das nossas irregularidades de administração, do nosso atraso e do nosso descrédito.
«Temos sido, numa palavra, enxovalhados e vexados. Ora há portugueses suficientemente orgulhosos da sua qualidade de portugueses para sentirem isso como afronta pessoal e para, chegada a ocasião, tirarem do seu orgulho ferido a paciência, a tenacidade, a força necessária para procurar implantar no País a ordem e a boa administração, fomentar o progresso material, revolucionar a educação e dar à Nação e à sua política um tal aprumo e dignidade que possam reconquistar para Portugal o bom nome e o respeito de todos. 
«Esses portugueses sabem que, sem exageros, sem agressividade, sem declarar quixotescamente guerra ao mundo, os países, como os indivíduos, podem pelo seu trabalho e pelas suas virtudes, ter direito os pobres a estar diante dos ricos, os pequenos diante dos grandes, de pé, de cabeça levantada e até de chapéu na cabeça
AOS

Terça-feira, Outubro 18, 2011

Que fazer do Estado-a-que-chegámos

«Um país, um povo que tiverem a coragem de ser pobres, serão invencíveis»
(...)
«A unidade nacional alicerçada na antiga fidelidade e convivência dos povos espalhados pelas várias províncias de Portugal é a base indispensável - a única verdadeiramente eficiente - da nossa defesa. A consciência dessa unidade há-de ser o mais forte escudo contra a acção das propagandas externas, mas não constitui só por si toda a defesa. Esta temos de organizá-la nos planos correspondentes à multiplicidade de métodos usados contra nós.
Entretanto, temos de continuar a nossa vida, executar os nossos programas, promover os nossos empreendimentos, tão firmemente, tão serenamente como se não fosse já escândalo para o mundo a pretensão de continuarmos a defender o que muitos vêem ameaçado e alguns julgam mesmo perdido, na esteira de acontecimentos recentes que, aliás, se processaram em linhas muito diversas.
Não vejo que possa haver descanso para o nosso trabalho nem outra preocupação que a de segurar com uma das mãos a charrua e com outra a espada, como durante séculos usaram os nossos maiores. Esta nova tarefa, cujo peso nem sequer podemos avaliar, é desafio lançado à geração presente e vai ser uma das maiores provas da nossa História. É preciso ter o espírito preparado para ela; exigirá de nós grandes sacrifícios, a mais absoluta dedicação e, se necessário, também o sangue das nossas veias. Esta é a nossa sina, isto é, a missão da nossa vida, que não se há-de amaldiçoar mas bendizer pela sua elevação e nobreza
AOS

Uma dica, estes não são discursos proferidos pelo PM, Passos Coelho nem pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar.

Segunda-feira, Setembro 26, 2011

IV R€ich em embrião - Deutschland uber alles!

Países "terão de abdicar de parte da sua soberania", caso não respeitem critérios de estabilidade da Zona Euro.
Esta expressão, a ter sido proferida pela chanceler alemã, é um perigoso "remake" do que aconteceu na Europa a partir de 1933, (ainda) sem o recurso às armas, também pelos mesmos motivos (recessão económica, salvação do "espaço vital alemão", etc através da anexação de Estados e eliminação de grupos que atrasariam ou prejudicariam o Reich). Angela Merkel consegue assim, mais uma vez, atravessar o Arco do Triunfo, ao lado do presidente francês, agora sem résistence, com o símbolo do € num estandarte como mais uma cruz gamada, uma suástica da época contemporânea.
A Alemanha fala pela União, a Alemanha manda no BCE, a Alemanha decide as ajudas/ empréstimos, a Alemanha recebe chefes de Estado e Governo para lhes dar conselhos, comanda feriados e horas de trabalho dos países preguiçosos (devem chamar-nos ciganos), a Alemanha decide - com o dedo para cima ou para baixo - quem merece viver ou morrer nesta economia comum.
Não deixa de ser muito irónico que tomadas de posição deste género sejam feitas pela chanceler em plena presidência polaca da União Europeia.
ZIG HEILL comrad Merkel!

Terça-feira, Agosto 30, 2011

Da soberania

Considerar Portugal um país soberano, democraticamente livre em que prevalece a "vontade do povo" na escolha dos seus representantes é um pouco como falar da Alemanha no pós-guerra:
"(...) tal como uma boa parte dos eleitores sociais-democratas, não poderá fornecer qualquer razão motivada. De facto, tal como muitos da mesma opinião, escolheu o partido por eliminação: o partido democrata-cristão é excluído quando não se tem credo religioso; o partido comunista é opção impossível; o partido liberal é de qualquer modo pequeno demais para poder ter um papel e o partido conservador por demais desconhecido. Querendo pois votar, só restam os sociais-democratas, e para estes vai o voto, ao mesmo tempo que se pensa pouco importar quem ganhe as eleições, visto de qualquer maneira o país estar ocupado." Stig Dagerman, Outono Alemão, 1946

Isto, ou ter uma Troika de poderes económicos e políticos externos a conduzir a governação e condicionar a vida dos cidadãos e o seu acesso a bens e serviços.

Quinta-feira, Julho 28, 2011

Warhol e a governação de Portugal


Todos se lembram do célebre políptico criado por Andy Warhol para homenagear Marilyn Monroe nos idos de 60. A governação de Portugal nas últimas décadas é em tudo semelhante: a forma é a mesma, só mudam os matizes. 
Passos Coelho (que já dançava o tango com o seu antecessor demissionário) só muda o tom para a versão delicodoce, fazendo crer que parceiros sociais e povo terão a paciência de aceitar o "seu" plano, ainda que o plano apenas tenha sido por si assinado como 2º contraente, como entidade devedora. Vítor Gaspar é Teixeira dos Santos, pintado de técnico pedagogo, como se a natureza "técnica" das decisões definisse a sua bondade e não a natureza política que lhes está subjacente. A chamada redução da despesa, mãe de todas as medidas de combate ao défice, cai invariavelmente nas sobretaxas sobre rendimentos e tarifas dos autocarros, vulgo receita fiscal. 
E em que é diferente, a não ser na cor da "estrela pop", a nomeação de Armando Vara durante o desaire socratino para a chegada do conselheiro coelhista Nogueira Leite à vice-presidência da CGD?
É verdade que não há boys. Parecem bem mais girls, very very bad and naughty "working girls".