Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Rapar o tacho

Ontem, por motivos profissionais, fui destacado para uma conversa/entrevista ao eurodeputado pelo CDS Pipis, Luís Queiró. Finalmente um assunto "boémio depressivo" que justifica o título deste blog. É razão para rir e para chorar.

Vê-los na televisão é uma coisa, ouvi-los falar à nossa frente, ter de interagir com eles e encontrar formas de os fazer ser concretos no discurso, ser práticos nas medidas, ser esclarecidos nas matérias, é algo de muito distinto. A "eles" refiro-me, como calculam, aos meninos do tacho. É aliás sintomática a expressão que teve quando me dirigi para lhe pedir as declarações pretendidas: "deixe-me só comer alguma coisa". Claro, não foi também assim que chegou ao Parlamento Europeu, a vice-presidente da Comissão para os Transportes e o Turismo? Não por perceber de nenhuma destas duas matérias, mas porque alguém do partido lhe deixou "rapar o tacho".

Eu ontem acabei por lhe conceder essa vontade. Depois, todo contente, lá veio responder às perguntas, já com a boca cheia de nada, como o discurso.

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Pirómanos em Lisboa

É pena que apenas tenham anunciado a segunda edição do Mundial de Pirotecnia, que começa este sábado na marina do Parque das Nações, em Lisboa. Porque o Campeonato Nacional de Piromania já está a decorrer há alguns meses, privilegiando sobretudo as zonas rurais do país, para variar...

Importante é que a partir das 23h00 horas, todo os sábados de Setembro, os espectáculos de fogo de artifício vão iluminar os céus de Lisboa. Isto num esforço das entidades públicas para tentar prolongar a "época oficial" de fogos, desta vez na capital, para causar o impacto que as fagulhas esvoaçantes do Gerês, do Alentejo, de Santarém não causam. Os portugueses já estão bem habituados a céus iluminados durante as noites quentes de Verão

O Troféu Vencedor do Mundial de Pirotecnia será disputado pela Itália no dia 9, a Alemanha no dia 16 e pelos EUA a 23 de Setembro. O Grupo Luso de Pirotecnia tem a responsabilidade da cerimónia de encerramento, no dia 30 de Setembro, aproveitando até lá para atear mais alguns noticiários enquanto não há mais escândalos que envolvam voos da CIA, listas de devedores ao Fisco ou avanços nas OPAs pendentes.

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Mudam-se os tempos...

Houve tempos em que se discutia o sexo dos anjos, em qualquer lado. Agora os tempos são outros. Segundo uma notícia do Público, 3.000 astrónomos reúnem-se em Praga para discutir... se Plutão é mesmo um planeta.

Durante décadas, a comunidade científica definiu o sistema solar com nove planetas. Apesar disso, alguns astrónomos questionaram se seria correcto contar com Plutão, que é mais pequeno do que a Lua.

(Marques Mendes também é mais pequeno que Pedro Santana Lopes e mesmo assim é considerado líder do PSD... ou talvez não seja, mas não é isso que agora está em discussão)

A descoberta no ano passado de um objecto maior e mais distante do que Plutão lançou as definições cósmicas no caos.

(Aconteceu o mesmo quando, no ano passado, Ribeiro e Castro assumiu a liderança no CDS)

Agora, os cientistas reunidos em Praga na conferência da União Astronómica Internacional têm doze dias para decidir se retiram o estatuto de planeta a Plutão e se classificam um novo planeta, conhecido por Xena. "Primeiro que tudo, precisamos de ter uma definição de planeta", disse Pavel Suchan, um dos organizadores da conferência. "Parece que temos um empate", disse Suchan. "Metade quer que Plutão continue a ser planeta; a outra metade diz que Plutão não merece ser considerado um planeta".

Dependendo dos resultados, que serão revelados no final da conferência, o sistema solar poderá ser alargado para incluir 23, 39 ou até 53 planetas. Se o Xena, descoberto a 5 de Julho de 2005, for considerado um planeta, então também vários outros corpos celestes terão de o ser.

(Desde que não envolva Celeste Cardona)


Alguns cientistas sugerem que os planetas devem ser classificados em categorias, baseadas na sua composição. Assim, Júpiter seria rotulado de "planeta gigante gasoso", enquanto Plutão e Xena seriam "planetas anões gelados".

(Não é preciso ir tão longe se os encontramos no Canal Parlamento todos os dias, ali para os lados de São Bento)

Outros temas serão debatidos na conferência, nomeadamente a evolução da galáxia, a formação das estrelas e a ameaça dos objectos mais próximos da Terra, os asteróides. (mais terroristas)

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Um destino com queda para o mistério

«Morreu o bebé atingido na queda de um eucalipto em Sintra»

Já vem da altura do Eça de Queirós, do Lord Byron ou mesmo de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Sintra tem uma queda especial para o esoterismo e o mistério.

Desta vez a história passou-se com uma família de dez pessoas vindas de Amarante, atingidas pela queda de um eucalipto na estrada que segue para o Palácio da Pena. O bebé e a avó morreram, como não poderia deixar de acontecer num thriller deste género, em que se percebe existir um intuito propositado de eliminar os elementos daquela família a partir dos extremos etários...
De certeza que o ministério do Ambiente vai abrir um inquérito para averiguar as culpas da queda do eucalipto e, como é óbvio, o ónus irá cair sobre - não uma família vinda de Penafiel para um piquenique - mas sobre o próprio eucalipto.
A boa notícia é que dois dos feridos já receberam alta, enquanto outros dois vão ser operados hoje para retirar folhagem eventualmente entalada nas vias respiratórias, adiantou o presidente da Junta de Freguesia de Fridão. Como noticiou o Público, o autarca salientou que todos os feridos, internados no Hospital Amadora-Sintra e no São Francisco Xavier, estão livres de perigo, já que colocaram dois elementos da PSP à porta do quarto dos doentes, para manter os eucaliptos à distância.


Quarta-feira, Julho 12, 2006

Bodes expiatórios

O papa Bento XVI, em visita a Auschwitz há uns meses, perguntou "onde estava Deus durante o Holocausto". Joseph Ratzinger cometeu um erro teológico crasso. Devemo-nos sim perguntar onde estavamos, onde estavam as mulheres e os homens para deixar que tudo aquilo acontecesse. Passou-se há 70 anos como se passa hoje na Serra Leoa, na Guiné, no Tibete, em Angola. Onde andamos nós?
Porque esse Deus-bode-expiatório-de-todos-os-males é impotente perante os nossos actos, que estamos no mundo. Não arranjemos desculpas para a merda que fazemos ou para os actos de coragem que deixamos de fazer.

Quinta-feira, Julho 06, 2006

Espionagem industrial

Nos Estados Unidos três pessoas foram detidas por tentar vender segredos da Coca Cola à Pepsi. Por cá ainda ninguém se lembrou de prender a bancada do PSD por tentar vender ideias ao Governo porque a oposição simplesmente não existe.



Segunda-feira, Julho 03, 2006

Para atirar à cara dos jornalistas

«A imprensa sem alma»

«Cerca de mil e quinhentos «licenciados» em «Comunicação Social» e seus derivados saem, anualmente, de escolas, institutos e universidades onde aquelas coisas se ensinam. Um concentrado de sonhos e ambições, cedo atirado para o desespero de não encontrar emprego.

Saem com deficiente preparação. Não admira: conheço muitos professores daquilo. Desses muitos, todos são medíocres; arrastaram-se, penosamente, pelas redacções de jornais e revistas, e encontraram encosto no «professorado» ou nas assessorias de Imprensa. Bernard Shaw disse, com lúcido sarcasmo: «Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina». O resultado é o que se vê. Com as excepções a confirmar a regra, o jornalismo português não é mau - é péssimo. E as excepções correspondem àqueles e, sobretudo, àquelas, que foram para o ofício movidos pelo fulgor da paixão, a que adicionaram vontade, conhecimento - e a teimosia de fazer diferente.

Há anos, uma precipitada jornalista do «Diário de Notícias» quis saber os motivos que me haviam impelido ao jornalismo profissional. «O espírito de ser útil», respondi. E, também, a circunstância de o meu pai ter fundado jornais («Diário Popular» e «Diário Ilustrado»), e de aos jornais («A Voz» e «O Século», foram o primeiro e o último onde trabalhou) ter consagrado a parte mais estelar da sua vida.

A rapariga ficou surpreendida com a afirmação, e talvez a tomasse como impetuosidade de quem tem por hábito dizer o que pensa. Mais espantada a deixei quando lhe disse que estivera dez anos em «O Século» (de onde fora despedido por motivos políticos) e vinte e três no «Diário Popular», de lá saindo por incompatibilidade total com a deriva do vespertino. «E lá permaneceria, acaso as coisas não se houvessem alterado», disse. E perguntei: «E você?» Logo ela: «Estarei no ‘Diário de Notícias’ até arranjar uma assessoria».

Nasci num lençol de papel impresso. E conheci e trabalhei com o que de melhor existia na Imprensa da época. Quando nomeio os que deram a fisionomia ética e estética a essa componente fundamental da cultura portuguesa, não o faço por nostalgia. É um imperativo moral e uma espécie de reparação ao triste esquecimento a que esses homens foram ostensivamente votados. A memória das Redacções passa pela exigência de se lutar contra o esquecimento, o qual participa de um muito mais vasto projecto ideológico conservador.

Harrison Salisbury, que foi um dos maiores jornalistas ocidentais e uma assinatura de prestígio no «The New York Times», respondeu, certo dia, a um moço que lhe perguntara como poderia ser jornalista. «Percorra a Bronx, vá ao Harlem, caminhe por Queens. Assista a alguns julgamentos. Observe os hospitais públicos. Analise o comportamento social dos sindicatos. Fale com os polícias das esquadras dos bairros. Mas, sobretudo, goste de pessoas». Frases como estas deviam figurar em todas as Redacções. Aqui se contém a essência primeira do jornalismo. E é uma lição de tudo.

Já falei, em crónica anterior, da fúria acrítica e irracional que varre a Imprensa. O Mundial da Alemanha converteu-se na dimensão bufa de uma nova Aljubarrota. «A Bola», fundado pelo tarrafalista Cândido de Oliveira, titulava, na segunda-feira, a primeira página, com esta bizarria: «Heróis da Resistência», saltando, airosamente, sobre o significado profundo da expressão. Tudo é permitido. A razão, o bom senso e o bom gosto sofrem atropelos. O processo de imbecilização do país prossegue impante e impune. Todavia, qual for o resultado, a ressaca vai atirar os portugueses para o grau mais baixo da ciclotimia.

De uma maneira geral, os jornais portugueses são todos iguais, com notícias iguais, títulos semelhantes, precaucionistas, má prosa, vocabulário rudimentar, comentadores sem rasgo, preguiça na pesquisa, carência de criatividade, ausência de originalidade editorial. Os jornalistas não saem das Redacções, servem-se da net e do telefone, de meia dúzia de ideias feitas.

Chega-se ao absurdo de se publicar textos de acontecimentos internacionais, em narrativas compostas na Redacção, mas firmadas como se o jornalista estivesse no local. Há redactores que nunca, jamais, em tempo algum saíram em busca da notícia, ou na procura do desenvolvimento de uma informação dada pelos telejornais. Aparecem, nas primeiras páginas (não se deve dizer «capa», «capa» é de revista; «primeira página» é de jornal), chamadas para factos ocorridos quase vinte e quatro horas antes!

O espaço gasto em inutilidades atinge as raias do abstruso. E os custos de produção são caríssimos, exactamente porque há manifestamente um subaproveitamento das capacidades dos jornalistas. Diariamente, adquiro três (ocasionalmente quatro) jornais. Nos fins-de-semana, sete; quatro dos quais estrangeiros. Faço a comparação. Um desastre. Para nós, é evidente. Depois, a grande falácia da «independência» ideológica. O provincianismo, aqui, só dá para fazer caretas. É defeito o «El Pais» ser, manifestamente, de esquerda moderada; e «El Mundo» abertamente de direita? «The Guardian» defende causas de esquerda, assim como «Le Monde»; e «Le Figaro», de direita. São maus jornais, devido a essas definições? Bem pelo contrário. E outra pergunta: para que servem os «provedores»? São os vigilantes de quê e os curadores de que verdade absoluta ou relativa?

Lastimo ter de dizer isto: que estímulo à inteligência, que provocações à nossa inércia, que propostas indicam esses «comentadores» que enchem, de vacuidades e de necedades, as páginas dos nossos jornais, sobretudo aqueles que se dizem «de referência»?

Onde estão as grandes reportagens, as crónicas, as entrevistas, as notas e os artigos que escapam à vulgaridade e proporcionam, aos leitores, altos momentos de prazer e de reflexão? Onde se debatem as grandes causas e os nobres combates? A quem interessa esta emasculação do jornalismo português?

Faço-lhe, Dilecto, mais algumas perguntas ingénuas: percebeu alguma coisa do que ocorre em Timor? Será verdade que Alkatiri foi armadilhado pelo facto de se opor a uma negociata do petróleo, antagónica dos interesses dos timorenses? As tendências hegemónicas da Austrália, na região, obedecem ao princípio, sempre ambíguo, dos «interesses nacionais», de uma potência que só é grande pela impressionante dimensão do seu território? E quais as relações entre a Austrália e a Indonésia neste conflito?»

Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 3 Julho 2006