quarta-feira, julho 12, 2006

Bodes expiatórios

O papa Bento XVI, em visita a Auschwitz há uns meses, perguntou "onde estava Deus durante o Holocausto". Joseph Ratzinger cometeu um erro teológico crasso. Devemo-nos sim perguntar onde estavamos, onde estavam as mulheres e os homens para deixar que tudo aquilo acontecesse. Passou-se há 70 anos como se passa hoje na Serra Leoa, na Guiné, no Tibete, em Angola. Onde andamos nós?
Porque esse Deus-bode-expiatório-de-todos-os-males é impotente perante os nossos actos, que estamos no mundo. Não arranjemos desculpas para a merda que fazemos ou para os actos de coragem que deixamos de fazer.

quinta-feira, julho 06, 2006

Espionagem industrial

Nos Estados Unidos três pessoas foram detidas por tentar vender segredos da Coca Cola à Pepsi. Por cá ainda ninguém se lembrou de prender a bancada do PSD por tentar vender ideias ao Governo porque a oposição simplesmente não existe.



segunda-feira, julho 03, 2006

Para atirar à cara dos jornalistas

«A imprensa sem alma»

«Cerca de mil e quinhentos «licenciados» em «Comunicação Social» e seus derivados saem, anualmente, de escolas, institutos e universidades onde aquelas coisas se ensinam. Um concentrado de sonhos e ambições, cedo atirado para o desespero de não encontrar emprego.

Saem com deficiente preparação. Não admira: conheço muitos professores daquilo. Desses muitos, todos são medíocres; arrastaram-se, penosamente, pelas redacções de jornais e revistas, e encontraram encosto no «professorado» ou nas assessorias de Imprensa. Bernard Shaw disse, com lúcido sarcasmo: «Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina». O resultado é o que se vê. Com as excepções a confirmar a regra, o jornalismo português não é mau - é péssimo. E as excepções correspondem àqueles e, sobretudo, àquelas, que foram para o ofício movidos pelo fulgor da paixão, a que adicionaram vontade, conhecimento - e a teimosia de fazer diferente.

Há anos, uma precipitada jornalista do «Diário de Notícias» quis saber os motivos que me haviam impelido ao jornalismo profissional. «O espírito de ser útil», respondi. E, também, a circunstância de o meu pai ter fundado jornais («Diário Popular» e «Diário Ilustrado»), e de aos jornais («A Voz» e «O Século», foram o primeiro e o último onde trabalhou) ter consagrado a parte mais estelar da sua vida.

A rapariga ficou surpreendida com a afirmação, e talvez a tomasse como impetuosidade de quem tem por hábito dizer o que pensa. Mais espantada a deixei quando lhe disse que estivera dez anos em «O Século» (de onde fora despedido por motivos políticos) e vinte e três no «Diário Popular», de lá saindo por incompatibilidade total com a deriva do vespertino. «E lá permaneceria, acaso as coisas não se houvessem alterado», disse. E perguntei: «E você?» Logo ela: «Estarei no ‘Diário de Notícias’ até arranjar uma assessoria».

Nasci num lençol de papel impresso. E conheci e trabalhei com o que de melhor existia na Imprensa da época. Quando nomeio os que deram a fisionomia ética e estética a essa componente fundamental da cultura portuguesa, não o faço por nostalgia. É um imperativo moral e uma espécie de reparação ao triste esquecimento a que esses homens foram ostensivamente votados. A memória das Redacções passa pela exigência de se lutar contra o esquecimento, o qual participa de um muito mais vasto projecto ideológico conservador.

Harrison Salisbury, que foi um dos maiores jornalistas ocidentais e uma assinatura de prestígio no «The New York Times», respondeu, certo dia, a um moço que lhe perguntara como poderia ser jornalista. «Percorra a Bronx, vá ao Harlem, caminhe por Queens. Assista a alguns julgamentos. Observe os hospitais públicos. Analise o comportamento social dos sindicatos. Fale com os polícias das esquadras dos bairros. Mas, sobretudo, goste de pessoas». Frases como estas deviam figurar em todas as Redacções. Aqui se contém a essência primeira do jornalismo. E é uma lição de tudo.

Já falei, em crónica anterior, da fúria acrítica e irracional que varre a Imprensa. O Mundial da Alemanha converteu-se na dimensão bufa de uma nova Aljubarrota. «A Bola», fundado pelo tarrafalista Cândido de Oliveira, titulava, na segunda-feira, a primeira página, com esta bizarria: «Heróis da Resistência», saltando, airosamente, sobre o significado profundo da expressão. Tudo é permitido. A razão, o bom senso e o bom gosto sofrem atropelos. O processo de imbecilização do país prossegue impante e impune. Todavia, qual for o resultado, a ressaca vai atirar os portugueses para o grau mais baixo da ciclotimia.

De uma maneira geral, os jornais portugueses são todos iguais, com notícias iguais, títulos semelhantes, precaucionistas, má prosa, vocabulário rudimentar, comentadores sem rasgo, preguiça na pesquisa, carência de criatividade, ausência de originalidade editorial. Os jornalistas não saem das Redacções, servem-se da net e do telefone, de meia dúzia de ideias feitas.

Chega-se ao absurdo de se publicar textos de acontecimentos internacionais, em narrativas compostas na Redacção, mas firmadas como se o jornalista estivesse no local. Há redactores que nunca, jamais, em tempo algum saíram em busca da notícia, ou na procura do desenvolvimento de uma informação dada pelos telejornais. Aparecem, nas primeiras páginas (não se deve dizer «capa», «capa» é de revista; «primeira página» é de jornal), chamadas para factos ocorridos quase vinte e quatro horas antes!

O espaço gasto em inutilidades atinge as raias do abstruso. E os custos de produção são caríssimos, exactamente porque há manifestamente um subaproveitamento das capacidades dos jornalistas. Diariamente, adquiro três (ocasionalmente quatro) jornais. Nos fins-de-semana, sete; quatro dos quais estrangeiros. Faço a comparação. Um desastre. Para nós, é evidente. Depois, a grande falácia da «independência» ideológica. O provincianismo, aqui, só dá para fazer caretas. É defeito o «El Pais» ser, manifestamente, de esquerda moderada; e «El Mundo» abertamente de direita? «The Guardian» defende causas de esquerda, assim como «Le Monde»; e «Le Figaro», de direita. São maus jornais, devido a essas definições? Bem pelo contrário. E outra pergunta: para que servem os «provedores»? São os vigilantes de quê e os curadores de que verdade absoluta ou relativa?

Lastimo ter de dizer isto: que estímulo à inteligência, que provocações à nossa inércia, que propostas indicam esses «comentadores» que enchem, de vacuidades e de necedades, as páginas dos nossos jornais, sobretudo aqueles que se dizem «de referência»?

Onde estão as grandes reportagens, as crónicas, as entrevistas, as notas e os artigos que escapam à vulgaridade e proporcionam, aos leitores, altos momentos de prazer e de reflexão? Onde se debatem as grandes causas e os nobres combates? A quem interessa esta emasculação do jornalismo português?

Faço-lhe, Dilecto, mais algumas perguntas ingénuas: percebeu alguma coisa do que ocorre em Timor? Será verdade que Alkatiri foi armadilhado pelo facto de se opor a uma negociata do petróleo, antagónica dos interesses dos timorenses? As tendências hegemónicas da Austrália, na região, obedecem ao princípio, sempre ambíguo, dos «interesses nacionais», de uma potência que só é grande pela impressionante dimensão do seu território? E quais as relações entre a Austrália e a Indonésia neste conflito?»

Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 3 Julho 2006

sexta-feira, junho 23, 2006

O que está errado neste título?

As notícias do Diário Digital começam a ser um "habitué" neste blog. Esta equipa fantástica de jornalistas consegue estar sempre em cima dos temas quentes da actualidade, que eu muito agradeço. Aqui segue:

CDS-PP desafia PS a acabar com feriados religiosos

«O CDS-PP desafiou hoje a maioria parlamentar do PS a levar a laicidade do Estado até às últimas consequências e acabar com o Bispo das Forças Armadas, com a bênção em inaugurações e com os feriados religiosos. No debate em plenário de projectos sobre o protocolo do Estado, o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Melo, reclamou um lugar de destaque para a Igreja Católica “pelo que representa e pelo que faz em tantas áreas” em Portugal e insurgiu-se contra o “laicismo” do PS.

“Se quiserem ser coerentes com essa visão assim restrita do laicismo não poderão ficar por aqui. Terão também de acabar com as figuras do Vigário Castrense, Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança, equiparado a general de duas estrelas”, declarou.

“Não há outra alternativa. Para não falar dos feriados religiosos, todos eles relativos ao cristianismo, que o Estado supostamente laico manda respeitar e cumprir”, prosseguiu Nuno Melo, questionando também se o PS acabará com as bênçãos em inaugurações.

Insurgindo-se também contra a exclusão, pelo PS, dos descendentes da antiga família real das cerimónias oficiais, o líder parlamentar do CDS-PP afirmou que “a história portuguesa não começou em 1910” e desafiou a maioria socialista a dar nomes republicanos como “Ordem de 5 de Outubro” às ordens de Cristo ou de Santiago.

PS, que já tinha feito a sua intervenção no debate sobre o protocolo do Estado, não respondeu ao desafio feito por Nuno Melo, mas a deputada do Bloco de Esquerda (BE) Ana Drago, comentou ironicamente que o democrata-cristão “diz que vão terminar as prendas de Natal e os ovos da Páscoa”.»

quarta-feira, maio 31, 2006

Brincar ao quarto escuro

"Fechar criança num quarto escuro poderá ser punido por lei". E se for num quarto cheio de luz, já pode ser? Todos os dias temos pérolas destas, é o que vale. A revisão do Código Penal prevê a cobertura de todas as situações de violência física e psíquica, incluindo situações como encerrar uma criança num quarto escuro. Não é brincadeira. Andamos à procura de formas de educação que só passam por satisfazer caprichos e consentir com indícios de desvios de formação? E a pedagogia de dizer "não", também é encarada como "violência psicológica"? É óbvio que todas as pessoas de bom senso querem que os abusos e maus tratos sobre as crianças - e sobre pessoas de todas as idades já agora, desde os doentes mentais aos idosos, mulheres, sem-abrigo - acabem e que, quem pratica tais actos, seja punido.
Mas, e o dever e também o direito ao arrependimento depois de um acto de descontrolo, de uma reacção não premeditada que tenha resultado, infelizmente, numa situação de violência? Penas de um a cinco anos se a prática for exercida sobre cônjuges, menores e pessoas indefesas, dois anos se acontecer em frente a menores. Três a dez anos se houver ofensa grave à integridade física. Aqui a linha é mais ténue, como se percebe.
A violência não vem só das classes baixas e, se quisermos, a violência psicológica não se assiste apenas nas classes altas. Há matizes que não são só sociais, são culturais, são de formação independentemente do status. Há muita gente da alta que é capaz de deixar de rastos uma filha, um filho, uma mulher de tanta pancada, como há muita gente a viver das ajudas do Estado com comportamentos requintados de violência psicológica.
A questão que vale a pena reflectir com esta revisão do Codigo é se a ausência de um pai ou de uma mãe, por vários anos, não se torna numa violência maior para uma criança em crescimento. Se fechar um pai/mãe numa prisão não lhe tira a possibilidade de viver, em consciência, o seu acto.

segunda-feira, maio 29, 2006

Estórias que vendem

"O catolicismo (e o cristianismo, claro) é, lugar-comum, uma religião histórica, no sentido prosaico em que assenta numa história: sucedeu isto e aquilo, Jesus disse isto e aquilo. Qualquer alteração, deturpação ou interpretação heterodoxa dessa história agride ou enfraquece a Igreja, até, ou principalmente, se for fundada e, pior ainda, indiscutível."
Vasco Pulido Valente, PÚBLICO, 28-5-2006

Nenhum livro na actualidade (ou talvez nunca) suscitou uma polémica tão infantil como a que se tem vindo a observar junto dos intelectuais e até, pasme-se, do comum povo mortal. Não li o Código Da Vinci e não o lerei até se acabarem os livros que tenho há tanto tempo em cima da mesa de cabeceira ou que ainda não comprei mas espero vir a ler, porque são referências importantes para o meu desenvolvimento cultural. Vai demorar décadas. Teriam de acabar todos os grandes autores alemães, russos, franceses, ingleses, americanos e sul-americanos, africanos e asiáticos com nome no "hall of fame" da cultura mundial. Que eu saiba Dan Brown ainda não figura nessa lista, apenas se destaca por vender milhões de livros.
Ora o Código Da Vinci não pode ser uma grande obra. Admito que seja uma estória bem contada, com um enredo cativante e daquela intriga que nos faz ficar presos horas a fio até o mistério ser resolvido. Tem todo o mérito, como têm os livros que se levam para a praia, durante o Verão, para entreter enquanto sol faz o seu trabalho sobre as nossas peles tostadas. O Código Da Vinci é um "best seller" antes de o ser. Dan Brown foi pegar numa personagem (que, por acaso funda a maior parte daquilo que deveriam ser os valores da cultura ocidental) para criar um romance, e esta é precisamente a última forma como as pessoas encaram o livro. Como um romance.
Que se saiba a tal estória do código não tem fundamento - histórico - e a única personagem tirada de um contexto real é a de um professor, que por sinal estudou mesmo as obras de Da Vinci e a Gioconda, mas nunca descobriu quaisquer códigos secretos. Pior, nunca foi contactado por Dan Brown para confirmar as teses mirabolantes apresentadas no livro.
Toda esta discussão é absurda e a Igreja só faz mal em reagir negativamente, da mesma forma que os leitores, como Vasco Pulido Valente, caem na falácia de achar que o Código Da Vinci se trata de uma interpretação da vida de Jesus e que daí decorre uma agressão ou um enfraquecimento da fé das pessoas.

quarta-feira, maio 24, 2006

Matar portugueses cotado em Bolsa

Parece que, face ao período homólogo anterior houve uma redução de 50 por cento no assassínio de emigrantes portugueses na África do Sul. "De acordo com o gabinete do secretário de Estado das Comunidades, entre Janeiro e Maio foram assassinados três portugueses em Joanesburgo enquanto no mesmo período do ano passado morreram seis emigrantes", referia hoje notícia da Lusa.
Apesar dos esforços em rentabilizar os assaltos à mão armada, a taxa de eficácia no assassínio de portugueses baixou drasticamente, fenómeno que é explicado pelos empresários do crime por uma oferta cada vez menor de alvos a abater, considerado uma verdadeira "maçada". Os restaurantes e as mercearias sempre foram os locais preferidos para os ataques mas parece que agora terão de virar-se para as lojas de tapetes persas e correctoras de seguros.
O aumento dos preços do petróleo também pode estar por detrás da diminuição do volume de mortos portugueses nos primeiros cinco meses deste ano. A consequência mais provável, de acordo com o relatório, será a redução de custos e de pessoal, prevendo-se que no próximo quadrimestre haja mais 4.800 assassinos sul-africanos desempregados. Na sequência deste anúncio, o ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Malembo Kutumba, já alertou que não vai alargar o orçamento do Rendimento Mínimo Garantido. "Temos de estimular o empreendorismo e a iniciativa individual", afirmou taxativo.

quinta-feira, maio 18, 2006

Umas atrás das outras...

«Homens e chimpanzés tiveram sexo depois da evolução»

"Os antepassados do Homem e do chimpanzé tiveram relações sexuais durante milhares de anos até à separação definitiva das espécies, o que afinal aconteceu há muito menos tempo do que se pensava, revela hoje a revista científica Nature.

Segundo o trabalho, desenvolvido por uma equipa investigadores norte-americanos conduzida por David Reich, da Universidade de Harvard, as duas linhagens separaram-se há 6,3 milhões de anos no máximo, e provavelmente até há menos de 4 milhões de anos o que não os impediu de proceder à troca de genes.

Tal é perceptível em particular ao nível dos cromossomas X (cromossomas sexuais femininos) que, nos chimpanzés e nos humanos, são mais parecidos do que os restantes cromossomas, precisam os cientistas.

O «divórcio» final e definitivo não terá, afinal, acontecido há muito mais do que quatro milhões de anos, o que significa que após terem começado a separar-se, humanos e chimpanzés ter-se-ão ainda cruzado durante mais de um milhão de anos.

Os resultados obtidos neste estudo, segundo os investigadores, põem em causa o estatuto dos hominídeos considerados como os mais antigos ancestrais do Homem, tais como o Saelanthropus Tchadensis (Toumai), que viveu há cerca de sete milhões de anos, o Orrorin Tugenensis, que viveu há seis milhões de anos, ou ainda o Ardipithecus Ramidus, que terá vivido há perto de 5,5 milhões de anos.

O enigma das origens do chimpnazé continua contudo praticamente todo por desvendar, já que contrariamente aos ancestrais do Homem, dos quais há numerosos fósseis, não foi encontrada até hoje qualquer ossada atribuível aos primeiros chimpanzés, à excepção de alguns velhos dentes.

Além disso, a sequenciação completa do genoma do chimpnazé, publicada no ano passado, confirmou que as duas espécies são geneticamente idênticas em 99%."

Ontem foi a ovulação, hoje é a evolução. Durante anos a fio vieram com a conversa de que o homem mordeu o cão. Como se já não bastasse para arrasar a nossa auto-estima, apresentam um estudo que diz que homens e chimpanzés tiveram sexo depois da evolução, durante milhares de anos. Resta saber a evolução de qual das espécies...

Caramba, durante milhares de anos? Estão a dizer-me que eu sou resultado de uma hipotética relação zoófila entre o meu tetra-avô e uma macaca? Eu sei que é difícil encontrar uma química porreira com uma parceira de jeito, mais ou menos engraçada. Lá se vai a teoria da Criação, de uma Eva à imagem daquela pintada por Botticelli. Só de pensar que tudo deve ter começado com a atracção entre um hominídeo e um macaco chamado Tony Ramos, numa relação que durou mais de um milhão de anos, leva-me a ter outra percepção daquilo que hoje entendemos ser uma mulher bonita. Reparem, andámos um milhão de anos a ter sexo com chimpanzés e no ano 2006 nem sequer conseguimos olhar para a amiga gorda daquela que achamos tão gira, e muito menos chegar a vias de facto. Reflictamos sobre isto.

quarta-feira, maio 17, 2006

Saliva fértil

"Aparelho que identifica período fértil chega hoje a Portugal"

A partir desta quarta-feira está à venda nas farmácias um aparelho que permite às mulheres verificar se estão no período fértil. Através do Fetilfacil, as mulheres podem saber qual o melhor período para engravidar.

O Fetilfacil é um sistema microscópico que utiliza a saliva para determinar em que fase se encontra a ovulação. «Basta a pessoa recolher uma gota de saliva, colocá-la no vidro do aparelho e deixar secar durante 15 minutos», explicou a directora de marketing do dispositivo.

«Se aparecerem uns pontinhos e umas bolinhas, a mulher não está em período fértil. Se surgirem poucas folhinhas de palmeiras, está numa fase pouco fértil. Se as folhas das palmeiras forem em número mais elevado, está num período fértil», acrescentou Sara Santos.

Sara Santos disse ainda que o aparelho se assemelha muito a um baton e pode ser transportado de forma discreta na mala. Sem contra-indicações, o Fetilfacil está disponível nas farmácias quatro horas após o pedido e tem um preço recomendado de 69 euros.

Além de indicar o período fértil, o que permite saber qual é a altura ideal para engravidar, Madalena Santos, especialista em Medicina de Reprodução, alerta para o facto do aparelho permitir às mulheres inférteis perceber que algo está errado.

«As mulheres que não conseguem engravidar costumam esperar um ano para consultar um médico. Com este dispositivo, podem aperceber-se de que algo se passa e consultar um especialista mais cedo», concluiu Madalena Santos.


Tudo nesta notícia, divulgada pelo Diário Digital, é caricato. Primeiro, quaisquer sistemas que usem saliva para determinar fases disto ou daquilo soa a abuso. Qualquer dia abordamo-nos assim: "oh filha, posso lamber-te a testa para saber se estás com dor de cabeça?" ou "olhe, desculpe, olhei para si e achei-a tão interessante. Posso dar-lhe um valente beijo para saber se é recíproco?"

Neste caso ainda se torna mais engraçado. Além de secar o cabelo. pôr alguma maquilhagem e escolher a roupa para sair, as mulheres ainda vão fazer os maridos/namorados (ou desconhecidos, quem sabe) esperar mais 15 minutos para saberem se estão no período fértil. Não sou entendido nestas matérias, e até tenho pena, mas fazendo as contas uma mulher não sabe à partida se está ou não no período fértil?

Para identificar que a mulher não está em fase de ovulação o aparelho mostra "pontinhos e bolinhas". Se surgirem "poucas folhinhas de palmeiras", está numa fase pouco fértil. Se as folhas das palmeiras forem "em número elevado", enganou-se e foi parar ao Brasil.

Nem sequer vou fazer comentários em relação ao facto de ser um aparelho que funciona com saliva, com forma de baton e ter "um preço recomendado de 69 euros"... Porque não 70 euros, que raio?!

quinta-feira, maio 04, 2006

Abaixo o poder da Igreja

A Igreja só pode existir se não tiver poder. Melhor, a Igreja que assim se chama como actualização do Evangelho de Jesus, só faz sentido se for desprovida de qualquer poder, se não puder colocar crucifixos nas escolas, se não beneficiar de Concordatas com o Estado, se não for uma autoridade moral.

Pode parecer chocante este discurso, mas não é. Quem foi Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, senão aquele que apresentou um projecto contra todo o poder, contra todos os "pactos de regime" que os poderes estabelecem entre si para oprimir mulheres e homens de todos os tempos? Jesus foi, precisamente, o modelo de humanidade e entrega que chamou a atenção de todos em relação à cegueira de nos deixarmos reger por leis escritas pelos que detêm a chave da cidade, a chave dos templos e dos cofres. Dando a vida.

A Aliança que Jesus estabeleceu foi com as mulheres e homens frágeis e indefesos, com os pobres e os excluídos. Não foi com os líderes religiosos e príncipes dos sacerdotes, nem com o rei Herodes, nem mesmo com o governador romano de turno Pôncio Pilatos. E essa é uma realidade que existia então como existe hoje, passados dois mil anos.

Por isso, em vez de nós - Igreja - nos preocuparmos com os caminhos que as sociedades decidem tomar para viverem melhor e mais livres, devemos preocupar-nos em sermos testemunho para os pobres, os que não têm voz, os ignorados e desprezados, os abusados e violados na sua dignidade. Tirem-nos - a nós, Igreja - todos os privilégios e saberemos executar melhor a nossa missão.

quinta-feira, abril 27, 2006

No malhar é que está o ganho

Começo o dia bem disposto até que abro o Público e leio a crónica do Pacheco Pereira "Quem paga a crise?". Assim não há ânimo que valha, caramba! Citam-se os relatórios da OCDE e do Banco Mundial e conclui-se que estamos pior, que o défice é superior ao previsto, que os tempos serão ainda mais difíceis, que que que. Os resultados são maus e o dito cronista faz questão de malhar no governo de José Sócrates.
Quem me conhece sabe que não sou propriamente fã deste político sexy, nem tão pouco desta suposta ala esquerda do Parlamento. Aliás, nem desta nem de outras. Mas o facto que me enerva é que passou um ano desde que este Executivo assumiu funções. Um ano! Ninguém consegue fazer nada deste país num ano! O que é que passa pela cabeça de um tipo como o Pacheco Pereira quando se aproxima a data de escrever a sua crónica semanal? "Deixa ver, hmm, vou falar de medidas interessantes a aplicar ao nível dos incentivos à produtividade? Não, vou antes mandar uns bons bitaites acerca da forma como os portugueses devem assumir um compromisso com o país, no sentido de estimular a economia, provando como o Estado pode criar formas de premiar os que têm melhores desempenhos? Também não. Olha, já estou a ficar com uma dor de cabeça dos diabos, é mais fácil olhar para os acontecimentos dos últimos dias e atirar tudo contra o Governo. Eu só tenho de descarregar a minha bílis e os gajos que se justifiquem, e é se quiserem!"
Amigo, camarada, palhaço, é óbvio que quaisquer medidas (boas ou más, depende do critério e do quão fundo está entranhada a partidocracite) levam tempo a surtir efeito, até que se notem mudanças nos números, nos indicadores, nos défices mas, sobretudo, nas mentalidades de quem os vê, de quem os analisa e de quem os vive, no dia a dia.
Os erros cometidos por José Sócrates todos nós podemos apontar, todos os tiros no pé, todos os ditos por não dito, todas as "inverdades". É fácil, basta ligar a TV, ler os jornais, assistir à apresentação pública dos "grandes projectos estruturantes". Eu sei fazer isso, toda a gente sabe. É até o que sabemos fazer melhor, sentados na esplanada com os amigos a beber um café. O que pouca gente sabe (e parece claro que Pacheco Pereira não quer entrar neste pequeno grupo) é apontar a si próprio como bode expiatório da nulidade que este país produz (ou deixa de produzir) diariamente.

sexta-feira, abril 21, 2006

Vergonha das vergonhas

Passaram ontem 500 anos do assassínio de cerca de 4 mil judeus em Lisboa, pela altura da Páscoa. Da comunidade católica, cristã, nem uma palavra. E na chamada sociedade civil, muito poucas, sem expressão.
Vergonhoso!

quarta-feira, abril 19, 2006

Homenagem ao fotógrafo


Não podia deixar de publicar este "belo" cartão de visita de um grande fotógrafo. João Barata

segunda-feira, abril 10, 2006

"Tá gente...!"

Há uma dúvida que me assalta quando vou a uma casa de banho pública e preciso mesmo de ir àqueles compartimentos fechados. Se a porta está fechada, normalmente bato. Do outro lado respondem: "Tá gente!" O primeiro problema coloca-se aqui (além do facto de a necessidade agudizar)... Quando respondem que "está gente", será que pressupõe mais do que uma pessoa? Se sim, que raio estará um grupo - já que um grupo é correspondente a dois ou mais indivíduos - a fazer num espaço tão exíguo? Ainda se se tratasse de um WC de mulheres, já se sabe do costume de irem acompanhadas. Não, não é um comentário machista, trata-se da constatação de uma realidade, a tratar num futuro post.

E se não, se de facto se encontra apenas um tipo, só, por que diz que "está gente", em vez de "estou cá eu"? Quando se utiliza a primeira fórmula, seja quem for que está a ocupar o compartimento, fala como se estivesse cá fora a responder a si próprio... Ou melhor, nega a sua individualidade. Compreende-se que a posição de sentado na sanita não seja propriamente uma imagem que dignifique ninguém, mas não parece justo chegar a este extremo!

Há também os que tossem, como que se escusando a verbalizar qualquer palavra, evitando o risco de ser reconhecido mais tarde quando regressa à sala do restaurante, ou do bar, ou da discoteca. Deste lado: "toc toc". Do outro: "cof cof". É verdade que o acto de tossir contrai os músculos abdominais e pode ajudar, assim, a desempenhar - ou desempanar - melhor a função para se despachar mais depressa...

Depois há os que não dizem nada. "Está alguém?" Resposta: "..................". "Com licença?!" Resposta: "............." Depois de muito forçar a porta para perceber se ficou inexplicavelmente trancada, por dentro, lá ouvimos um punzito ou o desenrolar do papel higiénico e percebemos, de facto, que "está gente". Se bem que por vezes não se compreende como é que "gente" faz ruídos daqueles, mas enfim.

Por fim, os que, enquadrando-se em qualquer dos exemplos dados acima, teimam em não sair da retrete até perceberem que ninguém os vê, ninguém os ouve. Um verdadeiro acto de espionagem. Entram e saem sem que se dê conta do que lá foram fazer, um desprezível cocó!

Para breve prometo focar o tópico casas de banho públicas, na óptica da infra-estrutura pré e pós utilização, o que dará concerteza muito que escrever. Grato pela atenção e, se me dão licença, depois disto só posso puxar o autoclismo.

sexta-feira, março 31, 2006

Quem sou eu, afinal?

«É impressionante verificar, na minha vida diária, a enorme diferença que existe entre cinismo e alegria. Para onde quer que vão, os cínicos procuram a escuridão. Apontam para os perigos à espreita, para as motivações impuras, para os motivos ocultos. Chamam à confiança, ingenuidade; à atenção, romanticismo; e ao perdão, sentimentalismo.
Sorriem, com desprezo, perante o entusiasmo, ridicularizam o fervor espiritual e menosprezam o comportamento carismático. Consideram-se realistas que vêem a realidade tal como é e que não se deixam enganar pelas "emoções de evasão". Mas ao desprezarem a alegria de Deus, a sua escuridão provoca maior escuridão.
Em cada momento do dia tenho a oportunidade de optar pelo cinismo ou pela alegria. Cada pensamento que me ocorre pode ser cínico ou alegre. Cada palavra que pronuncio pode ser cínica ou alegre. Cada acto que realizo pode ser cínico ou alegre. Cada vez tenho maior consciência destas opções e cada vez mais descubro que cada uma das opções pela alegria, conduz a uma alegria maior e faz que se descubram mais razões para fazer da vida uma verdadeira festa na casa do Pai.»

Henri Nowen,in O Regresso do Filho Pródigo

terça-feira, março 07, 2006

Os cábulas da Europa

Continuamos a ser importadores. Há cinco séculos que o somos e, se no início desta estratégia conseguimos ser competitivos com interposto comercial de especiarias e matéria-prima então desconhecidas na Europa, desde o século XIX que o fazemos de forma completamente ineficaz, salvo a excepção das artes, da arquitectura e da literatura, em que os chamados “estrangeirados” como o Eça se revelaram grandiosos contributos para a cultura portuguesa.

Ontem Sócrates visitou a Finlândia para se inspirar naquele modelo de sucesso. Como o cábula que se senta, durante o exame, ao lado do melhor aluno da turma. Revela perspicácia do primeiro-ministro mas uma igual dose de irrealismo e preguiça. Tentar importar o modelo de uma sociedade que nada tem a ver com a nossa, latina e mediterrânea, é quase comparável aos erros cometidos em África quando se tentaram implementar sistemas políticos e sociais à semelhança do que se praticava nas democracias europeias. E vejam no que deu...

Ainda ninguém se lembrou que é a mentalidade que está inquinada. O “modelo finlandês” surgiu num contexto de recessão no início da década de 90, é certo. Como a nossa dez anos depois. Mas já então o Estado social daquele país nórdico era altamente desenvolvido, ao contrário do nosso até nos dias de hoje. Lá, havia uma interacção entre sectores público e privado e entre universidades e empresas, baixos níveis de corrupção e altos níveis de confiança no Estado, uma forte identidade nacional, construída historicamente contra a ameaça de grandes vizinhos externos. Vá-se lá encontrar comparação com Portugal...

Outra coisa de que ainda ninguém se lembrou de referir é que, para se ser grande em planos tecnológicos tem se desenvolver tecnologia e, que eu saiba, não temos nenhuma empresa tipo Nokia ou Siemens... A única coisa que conseguimos exportar são os “cérebros”, e que de nada nos servem, o vinho do Porto (maioritariamente de capitais britânicos), o vinho da Madeira e a cortiça (graças a Deus que temos o Mourinho a defendê-la além fronteiras).

Não é a copiar que vamos ser brilhantes, sobretudo porque nem sequer alcançamos o significado do que o nosso colega finlandês está a escrever na folha de exame. Podemos até passar mas continuamos medíocres.

sexta-feira, março 03, 2006

Será que Freitas do Amaral bebe?

Depois de ler as últimas declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, na Assembleia da República, só uma ideia me passa pela cabeça... Freitas do Amaral tem problemas com a bebida!
No Público lê-se que o ministro (ora de direita, ora de esquerda, ora de quem o apanhar) “sustentou que a condenação da violência contra as embaixadas ‘não era essencial’ mas antes ‘pôr água na fervura’”. A declaração ultrapassa o absurdo e o senhor ministro devia saber utilizar melhor as palavras, já que parece dar-lhes tanto valor. Não saberá, porventura, que pôr água na fervura só adia o transbordar mas aumenta o seu volume?? Talvez fosse melhor pôr água no lume, digo eu.....
Como se não bastasse, em reacção às acusações do CDS de não condenar os actos violentos contra embaixadas, Freitas considerou que “os ataques aos edifícios eram ‘uma reacção condenável, mas compreensível, face às ofensas enormes feitas à comunidade islâmica por um jornal de extrema-direita dinamarquesa’”. Ponhamos as coisas nos seus devidos lugares. Condenável mas compreensível? O quê? Como o Holocausto à luz do seu contexto económico? Como o 11 de Setembro à luz das crenças de quem o praticou? Tudo é condenável mas compreensível, nesse sentido... desculpável diria Freitas. Quem se recordar que uma das primeiras visitas de José Sócrates foi a Líbia governada na "democracia musculada" de Kadhafi, um dos grandes exportadores de petróleo, perceberá por que quer a diplomacia portuguesa “pôr água na fervura”. Vejam lá se não se enganam e deitam gasolina...
Depois, o ministro fala de “ofensas enormes” de um “jornal de extrema-direita”. Reflecte o sentimento geral dos dinamarqueses, das comunidades ocidentais? Não, não reflecte. Assim como os ataques a pessoas e edifícios ocidentais não são arquitectados pela maioria da população islâmica mas por pessoas eficazes, com interesse em instrumentalizar as massas para agudizar uma “guerra de civilizações”.
Não tenho muitas dúvidas de que se está a criar uma nova Cortina de Ferro a partir de onde, uma vez mais, se divide o mundo em dois opostos. Só que, em vez de ideológicos, são extremos religiosos e culturais à beira de uma explosão, mais grave do que o nuclear.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Brokeback Mountain

O novo filme de Ang Lee é excepcional, como história de amor, como retrato da América rural, com uma fotografia de perder a respiração e grandes interpretações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. Aconselho vivamente!

Agora, independentemente de todas estas virtudes, de muito provavelmente merecer quase todas as nomeações para os Óscares, oh meus amigos... Brokeback Mountain?? Ou, numa tradução literal em português, “Montanha das costas partidas”! É um título que se põe a jeito de se fazer referências a sabonetes perdidos. Além de que estes queridos, a dada altura, por estarem cheios de fominha, matam um veado para o comer. Já não me lembro bem é se comem primeiro o veado ou.....

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Saber viver

Perguntaram um dia a Buda:
- O que mais te surpreende na Humanidade?
Ele respondeu - Os homens.
Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem o presente, de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro.
E porque vivem como se nunca fossem morrer, morrem como se nunca tivessem vivido.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Brincar com Deus... porque não?

"A ideia e a própria palavra Deus estão, na maior parte dos casos, ligadas à angústia, ao drama, à culpabilidade, ao castigo, ao sofrimento, à morte, ao juízo final. A sabedoria popular, pessimista e conservadora, diz que a morte aproxima de Deus. Com a idade o mundano faz-se eremita; o desfrutador louva a austeridade; o libertino, a castidade; e o rico, a generosidade; os espíritos fortes sentem algumas fraquezas; e o céptico que duvidava de tudo, excepto da sua pessoa, começa a desconfiar de si próprio. Aquele que acredita no céu e aquele que não crê nem em Deus nem no Diabo fazem juntos o último bocado de caminho… Diante desta onda de fraquezas ou conversões, tão repentinas como radicais, tão últimas como tenebrosas, se Deus não desata a rir...
O que Ele nos garante - olhando para todas as religiões da terra em todos os tempos e lugares - é que não fez contrato de exclusividade com nenhuma. E que os judeus, os cristãos e os muçulmanos não se zanguem com Ele por causa disso.
"

Frei Bento Domingues, Público, 12 Fevereiro