segunda-feira, maio 31, 2010

Faltam menos de 24 horas...

... para o plano de austeridade. Acabaram-se os almoços grátis. Acabaram-se, aliás, os almoços.
Não faz mal. Camarada, se perdeste o emprego, se tens fome, deixa de ser caprichoso. Não sejas careta, entra no espírito. Põe a boca ao serviço e toca de soprar na vuvuzela  até te saírem os olhos das órbitas. Vem apoiar Portugal.
Mas faz um favor, não esperes que Portugal te apoie a ti. Não sejas egoísta.

sábado, maio 29, 2010

Freud também explica a golden share

Dispense-se a Comissão de Inquérito ao negócio PT/TVI! Arrumem-se as traquitanas e mandem-se as senhoras e senhores deputados para casa. Feche-se também o dr. Mota Amaral numa embalagem em vácuo e conserve-se bem para, de futuro, se fazer respeitar a Constituição em situações que possam revelar-se atentatos velados ao Estado de Direito.
A propósito da eventual OPA da espanhola Telefónica sobre a PT, o primeiro-ministro veio puxar dos galões e acenar com a "golden share" que o Estado tem na Portugal Telecom. "Para Portugal, a PT é uma empresa estratégica. É por isso aliás que temos uma 'golden share'. É para nós estratégica se for uma empresa grande, se tiver uma ambição de participar naquilo que é a economia global, de estar presente em vários continentes, como está a PT. (...) Nós queremos uma PT grande, uma PT com escala".
Ora, se isto não é um autêntico deslize freudiano, não sei o que será. Deixemos de lado as respostas (escritas com a ajuda dos spin doctors de serviço) às 80 perguntas da comissão. Na folha em branco, José Sócrates sabe bem afirmar uma coisa e o seu contrário, sem mentir. Atenção, sem nunca mentir.
Já a quente, sem as "fichas" preparadas, resvala-lhe o pé para o chinelo, como acaba de acontecer, admitindo que o governo está, como tem de estar, por dentro das negociações existentes na PT por ter a tal golden share que, por ironia, vai ser impedido de usar por Bruxelas por violar a legislação comunitária.
Em 24 de Junho de 2009, o PM afirmava com a veemência que lhe é característica, que "o Estado não se mete nesses negócios", da participação da PT na TVI, apesar da bem conhecida vontade de calar uma linha editorial oposta aos interesses do Partido Socialista.
Também recebeu uma SMS de Vara confirmando a saída da "Manela", "não digas nada", mas não mentiu. Não mentiu.
Bem, de facto diz a sabedoria popular que uma mentira dita muitas vezes pode tornar-se uma verdade. Pelo menos na cabeça de quem a profere.

sexta-feira, maio 28, 2010

A austeridade da crise

Quando chegamos ao ponto em que as medidas de austeridade obrigam a eliminar medidas anti-crise é porque estamos mesmo mal, não é?
Sou eu ou o aumento do IRS em 1 e 1,5%, do IVA da Coca-Cola e dos iogurtes bifidus activus e os 2,5% adicionais no IRC das empresas com mais de 2 milhões de lucros são medidas anti-crise, perdão, de austeridade? Ou são as outras? Os cortes no subsídio social de desemprego, a redução do número de dias de trabalho para efeitos de atribuição do subsídio de desemprego e o fim do alargamento do abono de família aos escalões 2 a 5 por conta das despesas de educação?
Dói-me a cabeça.

Porque o Pathos que não nos larga

Os gregos têm o Pathos e nós, os portugueses, temos o "Fado" de ter por primeiro-ministro um indivíduo que se intitula de Sócrates.
Se nos queremos definitiva e inequivocamente descolar da Grécia, não seria mais fácil que o PM começasse a chamar-se José Pinto de Sousa, como vem lá no Cartão do Cidadão? Só assim para acalmar os mercados financeiros. Nem que fosse por uns meses. Isso conseguíamos perdoar-lhe.
É que talvez já nem fossem necessárias as medidas de austeridade.

Vocês é que são Europeus, vocês


Quem não se lembra das Eleições Europeias 2009? Bom, talvez ninguém se lembre, foi há quase um ano. Mas a verdade é que o PS e o "avô cantigas" Vital Moreira adoptaram aquele mítico slogan de fervor federalista "Nós, Europeus". Já nem portugueses éramos. Éramos, nós todos, do Minho ao Algarve, europeus, cidadãos do mundo civilizado. Irmãos com as demais nações do Velho Continente, nos fundamentos e na filosofia que tem por base a construção de uma unidade em torno dos mesmos valores, do mesmo esforço comum em construir um espaço verdadeiramente comunitário. Isso e mais qualquer coisa.

Agora é vê-los.
"Cuidado com a Alemanha", Freitas do Amaral
"A situação de Portugal é completamente diferente da grega", José Maria Ricciardi (BES Investimento)
"Portugal e Grécia não estão no mesmo barco", Jean-Claude Trichet (presidente do BCE)
"Comparação à Grécia é injusta e despropositada", José Sócrates

Somos todos amigos, mas só quando os mercados estão a dormir.

quarta-feira, maio 26, 2010

O Regresso dos Especialistas (versão Mundial da Crise 2010)

Não deixa de ser confrangedor ver que, para convidados de um programa da SIC Notícias, sejam chamados a debater a actual situação financeira nacional/ europeia quatro eminências absolutamente comprometidas, na sua história pessoal e profissional, de forma efectiva ou "simplesmente" pelas vielas políticas em que se foram movendo, com o actual estado de coisas.

Luís Nazaré, ex-dirigente do PS nomeado presidente dos CTT para substituir Horta e Costa logo a seguir à vitória nas eleições legislativas de 2005, liderou o Instituto de Comunicações de Portugal (ANACOM) e tem ligações muito fortes ao Benfica. João Ferreira do Amaral, que hoje aparece na capa no Jornal de Negócios com a parangona de que a economia tem sido destruída pelo Euro, acompanhou o ex-presidente Mário Soares como consultor no período da integração de Portugal na CEE, tendo sido membro do comité de Política Económica da então comissão e da OCDE. A seguir temos Mira Amaral, com o percurso político que se conhece, com passagem pela CGD e mais recentemente com o presidente executivo em Portugal do cinzento Banco BIC (Angola). Por último, António Nogueira Leite. Se Teixeira dos Santos é a mãe biológica da Santa Maria Austeridade, este professor de economia bem pode reclamar-se como mãe adoptiva. Actualmente vogal do CA da Brisa (atenção ao corte nesse rating), o mesmo cargo que ocupa ou ocupou em inúmeras outras empresas (CUF, etc), desempenhou funções como secretário de Estado do Tesouro e Finanças em 1999 no governo de António Guterres...
Mira Amaral e Nogueira Leite têm até pontos comuns que não deixam de ser bastante curiosos num cenário de eventual alternância política da governação. Ambos pediram a cabeça de Manuela Ferreira Leite depois das eleições que reconduziram José Sócrates nos des(a)tinos do país em 2009, apoiando a candidatura interna de Pedro Passos Coelho e ambos têm experiência em colaborar com o PS num ou noutro momento da história recente de Portugal.

É a isto que chamam um painel de convidados com opiniões transversais. Não há dúvida que assim o esclarecimento público é garantido. De certeza que fariam diferente e com menos recurso ao jogging. Estamos bem entregues.

terça-feira, maio 25, 2010

Portugal Estupidificado

Felizmente que, com tantas notícias que nos deitam abaixo, tantos ataques especulativos dos mercados contra a soberania nacional, temos o "Regresso dos Incríveis" (soa um pouco a profecia).

Diz o site da SIC que "todos eles vão falar do que nunca falaram e mostrar o que o Mundo nunca viu. As vidas, as casas, os carros, as famílias, os segredos, os desafios mais ousados e as imagens mais surpreendentes.

Em 2008, “Os Incríveis”, com Cristiano Ronaldo tornou-se no programa de entretenimento mais premiado internacionalmente na história da Televisão Portuguesa depois de vencer o Festival Mundial FICTS, em Milão, de ter sido eleito o melhor documentário no 4º Festival Internacional de Desporto Televisão e Cinema da zona asiática e ter sido reconhecido com o prémio máximo no 12º Festival Internacional de Liberec, na República Checa."

Eu sabia que éramos grandes mas agora tenho a certeza. Se não fosse para rir desatava já a chorar.

Piada de mau gosto

Depois do episódio do Avastin, que aconteceu já vai para um ano no Hospital de Santa Maria, se o Público captou bem as palavras antes do deputado Ricardo Rodrigues ter obliterado todos os gravadores do hemiciclo, a oposição só pode estar a brincar.

Plano de austeridade lá de casa

Aumentar as receitas:
- Voltar a pedir a mesada aos pais porque o BES não está a emprestar dinheiro (nem a conseguir emprestado)

- Poupar

- Pedir um cartão de crédito para pagar a prestação da casa

- Não pagar a prestação da casa

- Pagar as prestações dos empréstimos só depois do Verão

- Poupar

Cortar nas despesas (depois de enviar o vale de correio para a África do Sul com €368):
- Não pagar a prestação da casa

- Dizer ao gerente do banco que estou a sofrer um ataque especulativo na minha dívida externa

- Regozijar-me com a sobretaxa de 1,5% de IRS sobre o meu vencimento, já que assim tenho menos para gastar

- Fazer um crédito individual só de €5.000 pré-aprovado, para ir de férias de Verão para Ibiza, e esquecer os planos de €10.000 para o Nikki Beach em Albufeira (já a pensar no aumento do IVA)

- Não comprar o passe social a partir de Julho

- Não beber Coca-Cola

Venha ao Pingo Doce de Janeiro a J...Junho









Porque depois a Coca-Cola já vai estar mais cara (IVA 6%). "Soube bem pagar tão pouco"

sexta-feira, maio 21, 2010

Não quero ficar na bicha, avanço já com a promulgação

Carta Aberta de um eleitor não homologado pelo PR:

"Pergunto se não seria útil dar conta dos efeitos desta promulgação no que diz respeito aos eleitores do actual Presidente da República.

É que eu, por exemplo, não votarei neste senhor nas próximas presidenciais. Votarei em branco. Traiu por todas as formas a expectativa que nele muitos depositávamos de constituir um contra-peso de bom senso nesta absurda agenda fracturante "civilizacional", começando pelo referendo ao aborto, que convocou imediatamente, e terminando nesta triste promulgação.

Para mais fê-lo desprezando os seus próprios poderes constitucionais, com base num inqualificável argumento utilitarista. Para mim acaba por ser indiferente que seja este o Presidente da República ou outro qualquer, como por exemplo o Manuel Alegre (nem acredito que tenhamos chegado a isto...).
Já nem as pessoas que tínhamos como rectas conseguem fazer política com alguma coragem: tudo se faz na base de frios cálculos pragmáticos eleitoralistas.

Pois bem. Talvez este cálculo tenha saído errado, porque muitas pessoas como eu deixaram de ter algum motivo para votar neste senhor. Muitos que eu conheço já me disseram que não voltariam a votar nele. E penso que o sentimento é mais genérico do que me mostra uma mera observação empírica. Pois a base eleitoral do actual PR não é precisamente aquela que é contrária a este tipo de leis iníquas?
Não seria bom que o senhor PR tivesse a consciência de que, para além de ter abdicado dos seus princípios - que pareciam até estar reforçados pela visita do Santo Padre - abdicou também (de muitos) dos seus eleitores?"

Estêvão da Cunha

Quatro anos depois...

Estamos na mesma... só "o mundo mudou, e de que forma". José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal, ainda país.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Rapar o tacho

Ontem, por motivos profissionais, fui destacado para uma conversa/entrevista ao eurodeputado pelo CDS Pipis, Luís Queiró. Finalmente um assunto "boémio depressivo" que justifica o título deste blog. É razão para rir e para chorar.

Vê-los na televisão é uma coisa, ouvi-los falar à nossa frente, ter de interagir com eles e encontrar formas de os fazer ser concretos no discurso, ser práticos nas medidas, ser esclarecidos nas matérias, é algo de muito distinto. A "eles" refiro-me, como calculam, aos meninos do tacho. É aliás sintomática a expressão que teve quando me dirigi para lhe pedir as declarações pretendidas: "deixe-me só comer alguma coisa". Claro, não foi também assim que chegou ao Parlamento Europeu, a vice-presidente da Comissão para os Transportes e o Turismo? Não por perceber de nenhuma destas duas matérias, mas porque alguém do partido lhe deixou "rapar o tacho".

Eu ontem acabei por lhe conceder essa vontade. Depois, todo contente, lá veio responder às perguntas, já com a boca cheia de nada, como o discurso.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Pirómanos em Lisboa

É pena que apenas tenham anunciado a segunda edição do Mundial de Pirotecnia, que começa este sábado na marina do Parque das Nações, em Lisboa. Porque o Campeonato Nacional de Piromania já está a decorrer há alguns meses, privilegiando sobretudo as zonas rurais do país, para variar...

Importante é que a partir das 23h00 horas, todo os sábados de Setembro, os espectáculos de fogo de artifício vão iluminar os céus de Lisboa. Isto num esforço das entidades públicas para tentar prolongar a "época oficial" de fogos, desta vez na capital, para causar o impacto que as fagulhas esvoaçantes do Gerês, do Alentejo, de Santarém não causam. Os portugueses já estão bem habituados a céus iluminados durante as noites quentes de Verão

O Troféu Vencedor do Mundial de Pirotecnia será disputado pela Itália no dia 9, a Alemanha no dia 16 e pelos EUA a 23 de Setembro. O Grupo Luso de Pirotecnia tem a responsabilidade da cerimónia de encerramento, no dia 30 de Setembro, aproveitando até lá para atear mais alguns noticiários enquanto não há mais escândalos que envolvam voos da CIA, listas de devedores ao Fisco ou avanços nas OPAs pendentes.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Mudam-se os tempos...

Houve tempos em que se discutia o sexo dos anjos, em qualquer lado. Agora os tempos são outros. Segundo uma notícia do Público, 3.000 astrónomos reúnem-se em Praga para discutir... se Plutão é mesmo um planeta.

Durante décadas, a comunidade científica definiu o sistema solar com nove planetas. Apesar disso, alguns astrónomos questionaram se seria correcto contar com Plutão, que é mais pequeno do que a Lua.

(Marques Mendes também é mais pequeno que Pedro Santana Lopes e mesmo assim é considerado líder do PSD... ou talvez não seja, mas não é isso que agora está em discussão)

A descoberta no ano passado de um objecto maior e mais distante do que Plutão lançou as definições cósmicas no caos.
(Aconteceu o mesmo quando, no ano passado, Ribeiro e Castro assumiu a liderança no CDS)
Agora, os cientistas reunidos em Praga na conferência da União Astronómica Internacional têm doze dias para decidir se retiram o estatuto de planeta a Plutão e se classificam um novo planeta, conhecido por Xena. "Primeiro que tudo, precisamos de ter uma definição de planeta", disse Pavel Suchan, um dos organizadores da conferência. "Parece que temos um empate", disse Suchan. "Metade quer que Plutão continue a ser planeta; a outra metade diz que Plutão não merece ser considerado um planeta".

Dependendo dos resultados, que serão revelados no final da conferência, o sistema solar poderá ser alargado para incluir 23, 39 ou até 53 planetas. Se o Xena, descoberto a 5 de Julho de 2005, for considerado um planeta, então também vários outros corpos celestes terão de o ser.
(Desde que não envolva Celeste Cardona)


Alguns cientistas sugerem que os planetas devem ser classificados em categorias, baseadas na sua composição. Assim, Júpiter seria rotulado de "planeta gigante gasoso", enquanto Plutão e Xena seriam "planetas anões gelados".
(Não é preciso ir tão longe se os encontramos no Canal Parlamento todos os dias, ali para os lados de São Bento)
Outros temas serão debatidos na conferência, nomeadamente a evolução da galáxia, a formação das estrelas e a ameaça dos objectos mais próximos da Terra, os asteróides. (mais terroristas)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Um destino com queda para o mistério

«Morreu o bebé atingido na queda de um eucalipto em Sintra»

Já vem da altura do Eça de Queirós, do Lord Byron ou mesmo de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Sintra tem uma queda especial para o esoterismo e o mistério.

Desta vez a história passou-se com uma família de dez pessoas vindas de Amarante, atingidas pela queda de um eucalipto na estrada que segue para o Palácio da Pena. O bebé e a avó morreram, como não poderia deixar de acontecer num thriller deste género, em que se percebe existir um intuito propositado de eliminar os elementos daquela família a partir dos extremos etários...
De certeza que o ministério do Ambiente vai abrir um inquérito para averiguar as culpas da queda do eucalipto e, como é óbvio, o ónus irá cair sobre - não uma família vinda de Penafiel para um piquenique - mas sobre o próprio eucalipto.
A boa notícia é que dois dos feridos já receberam alta, enquanto outros dois vão ser operados hoje para retirar folhagem eventualmente entalada nas vias respiratórias, adiantou o presidente da Junta de Freguesia de Fridão. Como noticiou o Público, o autarca salientou que todos os feridos, internados no Hospital Amadora-Sintra e no São Francisco Xavier, estão livres de perigo, já que colocaram dois elementos da PSP à porta do quarto dos doentes, para manter os eucaliptos à distância.


quarta-feira, julho 12, 2006

Bodes expiatórios

O papa Bento XVI, em visita a Auschwitz há uns meses, perguntou "onde estava Deus durante o Holocausto". Joseph Ratzinger cometeu um erro teológico crasso. Devemo-nos sim perguntar onde estavamos, onde estavam as mulheres e os homens para deixar que tudo aquilo acontecesse. Passou-se há 70 anos como se passa hoje na Serra Leoa, na Guiné, no Tibete, em Angola. Onde andamos nós?
Porque esse Deus-bode-expiatório-de-todos-os-males é impotente perante os nossos actos, que estamos no mundo. Não arranjemos desculpas para a merda que fazemos ou para os actos de coragem que deixamos de fazer.

quinta-feira, julho 06, 2006

Espionagem industrial

Nos Estados Unidos três pessoas foram detidas por tentar vender segredos da Coca Cola à Pepsi. Por cá ainda ninguém se lembrou de prender a bancada do PSD por tentar vender ideias ao Governo porque a oposição simplesmente não existe.



segunda-feira, julho 03, 2006

Para atirar à cara dos jornalistas

«A imprensa sem alma»

«Cerca de mil e quinhentos «licenciados» em «Comunicação Social» e seus derivados saem, anualmente, de escolas, institutos e universidades onde aquelas coisas se ensinam. Um concentrado de sonhos e ambições, cedo atirado para o desespero de não encontrar emprego.

Saem com deficiente preparação. Não admira: conheço muitos professores daquilo. Desses muitos, todos são medíocres; arrastaram-se, penosamente, pelas redacções de jornais e revistas, e encontraram encosto no «professorado» ou nas assessorias de Imprensa. Bernard Shaw disse, com lúcido sarcasmo: «Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina». O resultado é o que se vê. Com as excepções a confirmar a regra, o jornalismo português não é mau - é péssimo. E as excepções correspondem àqueles e, sobretudo, àquelas, que foram para o ofício movidos pelo fulgor da paixão, a que adicionaram vontade, conhecimento - e a teimosia de fazer diferente.

Há anos, uma precipitada jornalista do «Diário de Notícias» quis saber os motivos que me haviam impelido ao jornalismo profissional. «O espírito de ser útil», respondi. E, também, a circunstância de o meu pai ter fundado jornais («Diário Popular» e «Diário Ilustrado»), e de aos jornais («A Voz» e «O Século», foram o primeiro e o último onde trabalhou) ter consagrado a parte mais estelar da sua vida.

A rapariga ficou surpreendida com a afirmação, e talvez a tomasse como impetuosidade de quem tem por hábito dizer o que pensa. Mais espantada a deixei quando lhe disse que estivera dez anos em «O Século» (de onde fora despedido por motivos políticos) e vinte e três no «Diário Popular», de lá saindo por incompatibilidade total com a deriva do vespertino. «E lá permaneceria, acaso as coisas não se houvessem alterado», disse. E perguntei: «E você?» Logo ela: «Estarei no ‘Diário de Notícias’ até arranjar uma assessoria».

Nasci num lençol de papel impresso. E conheci e trabalhei com o que de melhor existia na Imprensa da época. Quando nomeio os que deram a fisionomia ética e estética a essa componente fundamental da cultura portuguesa, não o faço por nostalgia. É um imperativo moral e uma espécie de reparação ao triste esquecimento a que esses homens foram ostensivamente votados. A memória das Redacções passa pela exigência de se lutar contra o esquecimento, o qual participa de um muito mais vasto projecto ideológico conservador.

Harrison Salisbury, que foi um dos maiores jornalistas ocidentais e uma assinatura de prestígio no «The New York Times», respondeu, certo dia, a um moço que lhe perguntara como poderia ser jornalista. «Percorra a Bronx, vá ao Harlem, caminhe por Queens. Assista a alguns julgamentos. Observe os hospitais públicos. Analise o comportamento social dos sindicatos. Fale com os polícias das esquadras dos bairros. Mas, sobretudo, goste de pessoas». Frases como estas deviam figurar em todas as Redacções. Aqui se contém a essência primeira do jornalismo. E é uma lição de tudo.

Já falei, em crónica anterior, da fúria acrítica e irracional que varre a Imprensa. O Mundial da Alemanha converteu-se na dimensão bufa de uma nova Aljubarrota. «A Bola», fundado pelo tarrafalista Cândido de Oliveira, titulava, na segunda-feira, a primeira página, com esta bizarria: «Heróis da Resistência», saltando, airosamente, sobre o significado profundo da expressão. Tudo é permitido. A razão, o bom senso e o bom gosto sofrem atropelos. O processo de imbecilização do país prossegue impante e impune. Todavia, qual for o resultado, a ressaca vai atirar os portugueses para o grau mais baixo da ciclotimia.

De uma maneira geral, os jornais portugueses são todos iguais, com notícias iguais, títulos semelhantes, precaucionistas, má prosa, vocabulário rudimentar, comentadores sem rasgo, preguiça na pesquisa, carência de criatividade, ausência de originalidade editorial. Os jornalistas não saem das Redacções, servem-se da net e do telefone, de meia dúzia de ideias feitas.

Chega-se ao absurdo de se publicar textos de acontecimentos internacionais, em narrativas compostas na Redacção, mas firmadas como se o jornalista estivesse no local. Há redactores que nunca, jamais, em tempo algum saíram em busca da notícia, ou na procura do desenvolvimento de uma informação dada pelos telejornais. Aparecem, nas primeiras páginas (não se deve dizer «capa», «capa» é de revista; «primeira página» é de jornal), chamadas para factos ocorridos quase vinte e quatro horas antes!

O espaço gasto em inutilidades atinge as raias do abstruso. E os custos de produção são caríssimos, exactamente porque há manifestamente um subaproveitamento das capacidades dos jornalistas. Diariamente, adquiro três (ocasionalmente quatro) jornais. Nos fins-de-semana, sete; quatro dos quais estrangeiros. Faço a comparação. Um desastre. Para nós, é evidente. Depois, a grande falácia da «independência» ideológica. O provincianismo, aqui, só dá para fazer caretas. É defeito o «El Pais» ser, manifestamente, de esquerda moderada; e «El Mundo» abertamente de direita? «The Guardian» defende causas de esquerda, assim como «Le Monde»; e «Le Figaro», de direita. São maus jornais, devido a essas definições? Bem pelo contrário. E outra pergunta: para que servem os «provedores»? São os vigilantes de quê e os curadores de que verdade absoluta ou relativa?

Lastimo ter de dizer isto: que estímulo à inteligência, que provocações à nossa inércia, que propostas indicam esses «comentadores» que enchem, de vacuidades e de necedades, as páginas dos nossos jornais, sobretudo aqueles que se dizem «de referência»?

Onde estão as grandes reportagens, as crónicas, as entrevistas, as notas e os artigos que escapam à vulgaridade e proporcionam, aos leitores, altos momentos de prazer e de reflexão? Onde se debatem as grandes causas e os nobres combates? A quem interessa esta emasculação do jornalismo português?

Faço-lhe, Dilecto, mais algumas perguntas ingénuas: percebeu alguma coisa do que ocorre em Timor? Será verdade que Alkatiri foi armadilhado pelo facto de se opor a uma negociata do petróleo, antagónica dos interesses dos timorenses? As tendências hegemónicas da Austrália, na região, obedecem ao princípio, sempre ambíguo, dos «interesses nacionais», de uma potência que só é grande pela impressionante dimensão do seu território? E quais as relações entre a Austrália e a Indonésia neste conflito?»

Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 3 Julho 2006