sexta-feira, maio 21, 2010

Não quero ficar na bicha, avanço já com a promulgação

Carta Aberta de um eleitor não homologado pelo PR:

"Pergunto se não seria útil dar conta dos efeitos desta promulgação no que diz respeito aos eleitores do actual Presidente da República.

É que eu, por exemplo, não votarei neste senhor nas próximas presidenciais. Votarei em branco. Traiu por todas as formas a expectativa que nele muitos depositávamos de constituir um contra-peso de bom senso nesta absurda agenda fracturante "civilizacional", começando pelo referendo ao aborto, que convocou imediatamente, e terminando nesta triste promulgação.

Para mais fê-lo desprezando os seus próprios poderes constitucionais, com base num inqualificável argumento utilitarista. Para mim acaba por ser indiferente que seja este o Presidente da República ou outro qualquer, como por exemplo o Manuel Alegre (nem acredito que tenhamos chegado a isto...).
Já nem as pessoas que tínhamos como rectas conseguem fazer política com alguma coragem: tudo se faz na base de frios cálculos pragmáticos eleitoralistas.

Pois bem. Talvez este cálculo tenha saído errado, porque muitas pessoas como eu deixaram de ter algum motivo para votar neste senhor. Muitos que eu conheço já me disseram que não voltariam a votar nele. E penso que o sentimento é mais genérico do que me mostra uma mera observação empírica. Pois a base eleitoral do actual PR não é precisamente aquela que é contrária a este tipo de leis iníquas?
Não seria bom que o senhor PR tivesse a consciência de que, para além de ter abdicado dos seus princípios - que pareciam até estar reforçados pela visita do Santo Padre - abdicou também (de muitos) dos seus eleitores?"

Estêvão da Cunha

Quatro anos depois...

Estamos na mesma... só "o mundo mudou, e de que forma". José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal, ainda país.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Rapar o tacho

Ontem, por motivos profissionais, fui destacado para uma conversa/entrevista ao eurodeputado pelo CDS Pipis, Luís Queiró. Finalmente um assunto "boémio depressivo" que justifica o título deste blog. É razão para rir e para chorar.

Vê-los na televisão é uma coisa, ouvi-los falar à nossa frente, ter de interagir com eles e encontrar formas de os fazer ser concretos no discurso, ser práticos nas medidas, ser esclarecidos nas matérias, é algo de muito distinto. A "eles" refiro-me, como calculam, aos meninos do tacho. É aliás sintomática a expressão que teve quando me dirigi para lhe pedir as declarações pretendidas: "deixe-me só comer alguma coisa". Claro, não foi também assim que chegou ao Parlamento Europeu, a vice-presidente da Comissão para os Transportes e o Turismo? Não por perceber de nenhuma destas duas matérias, mas porque alguém do partido lhe deixou "rapar o tacho".

Eu ontem acabei por lhe conceder essa vontade. Depois, todo contente, lá veio responder às perguntas, já com a boca cheia de nada, como o discurso.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Pirómanos em Lisboa

É pena que apenas tenham anunciado a segunda edição do Mundial de Pirotecnia, que começa este sábado na marina do Parque das Nações, em Lisboa. Porque o Campeonato Nacional de Piromania já está a decorrer há alguns meses, privilegiando sobretudo as zonas rurais do país, para variar...

Importante é que a partir das 23h00 horas, todo os sábados de Setembro, os espectáculos de fogo de artifício vão iluminar os céus de Lisboa. Isto num esforço das entidades públicas para tentar prolongar a "época oficial" de fogos, desta vez na capital, para causar o impacto que as fagulhas esvoaçantes do Gerês, do Alentejo, de Santarém não causam. Os portugueses já estão bem habituados a céus iluminados durante as noites quentes de Verão

O Troféu Vencedor do Mundial de Pirotecnia será disputado pela Itália no dia 9, a Alemanha no dia 16 e pelos EUA a 23 de Setembro. O Grupo Luso de Pirotecnia tem a responsabilidade da cerimónia de encerramento, no dia 30 de Setembro, aproveitando até lá para atear mais alguns noticiários enquanto não há mais escândalos que envolvam voos da CIA, listas de devedores ao Fisco ou avanços nas OPAs pendentes.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Mudam-se os tempos...

Houve tempos em que se discutia o sexo dos anjos, em qualquer lado. Agora os tempos são outros. Segundo uma notícia do Público, 3.000 astrónomos reúnem-se em Praga para discutir... se Plutão é mesmo um planeta.

Durante décadas, a comunidade científica definiu o sistema solar com nove planetas. Apesar disso, alguns astrónomos questionaram se seria correcto contar com Plutão, que é mais pequeno do que a Lua.

(Marques Mendes também é mais pequeno que Pedro Santana Lopes e mesmo assim é considerado líder do PSD... ou talvez não seja, mas não é isso que agora está em discussão)

A descoberta no ano passado de um objecto maior e mais distante do que Plutão lançou as definições cósmicas no caos.
(Aconteceu o mesmo quando, no ano passado, Ribeiro e Castro assumiu a liderança no CDS)
Agora, os cientistas reunidos em Praga na conferência da União Astronómica Internacional têm doze dias para decidir se retiram o estatuto de planeta a Plutão e se classificam um novo planeta, conhecido por Xena. "Primeiro que tudo, precisamos de ter uma definição de planeta", disse Pavel Suchan, um dos organizadores da conferência. "Parece que temos um empate", disse Suchan. "Metade quer que Plutão continue a ser planeta; a outra metade diz que Plutão não merece ser considerado um planeta".

Dependendo dos resultados, que serão revelados no final da conferência, o sistema solar poderá ser alargado para incluir 23, 39 ou até 53 planetas. Se o Xena, descoberto a 5 de Julho de 2005, for considerado um planeta, então também vários outros corpos celestes terão de o ser.
(Desde que não envolva Celeste Cardona)


Alguns cientistas sugerem que os planetas devem ser classificados em categorias, baseadas na sua composição. Assim, Júpiter seria rotulado de "planeta gigante gasoso", enquanto Plutão e Xena seriam "planetas anões gelados".
(Não é preciso ir tão longe se os encontramos no Canal Parlamento todos os dias, ali para os lados de São Bento)
Outros temas serão debatidos na conferência, nomeadamente a evolução da galáxia, a formação das estrelas e a ameaça dos objectos mais próximos da Terra, os asteróides. (mais terroristas)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Um destino com queda para o mistério

«Morreu o bebé atingido na queda de um eucalipto em Sintra»

Já vem da altura do Eça de Queirós, do Lord Byron ou mesmo de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Sintra tem uma queda especial para o esoterismo e o mistério.

Desta vez a história passou-se com uma família de dez pessoas vindas de Amarante, atingidas pela queda de um eucalipto na estrada que segue para o Palácio da Pena. O bebé e a avó morreram, como não poderia deixar de acontecer num thriller deste género, em que se percebe existir um intuito propositado de eliminar os elementos daquela família a partir dos extremos etários...
De certeza que o ministério do Ambiente vai abrir um inquérito para averiguar as culpas da queda do eucalipto e, como é óbvio, o ónus irá cair sobre - não uma família vinda de Penafiel para um piquenique - mas sobre o próprio eucalipto.
A boa notícia é que dois dos feridos já receberam alta, enquanto outros dois vão ser operados hoje para retirar folhagem eventualmente entalada nas vias respiratórias, adiantou o presidente da Junta de Freguesia de Fridão. Como noticiou o Público, o autarca salientou que todos os feridos, internados no Hospital Amadora-Sintra e no São Francisco Xavier, estão livres de perigo, já que colocaram dois elementos da PSP à porta do quarto dos doentes, para manter os eucaliptos à distância.


quarta-feira, julho 12, 2006

Bodes expiatórios

O papa Bento XVI, em visita a Auschwitz há uns meses, perguntou "onde estava Deus durante o Holocausto". Joseph Ratzinger cometeu um erro teológico crasso. Devemo-nos sim perguntar onde estavamos, onde estavam as mulheres e os homens para deixar que tudo aquilo acontecesse. Passou-se há 70 anos como se passa hoje na Serra Leoa, na Guiné, no Tibete, em Angola. Onde andamos nós?
Porque esse Deus-bode-expiatório-de-todos-os-males é impotente perante os nossos actos, que estamos no mundo. Não arranjemos desculpas para a merda que fazemos ou para os actos de coragem que deixamos de fazer.

quinta-feira, julho 06, 2006

Espionagem industrial

Nos Estados Unidos três pessoas foram detidas por tentar vender segredos da Coca Cola à Pepsi. Por cá ainda ninguém se lembrou de prender a bancada do PSD por tentar vender ideias ao Governo porque a oposição simplesmente não existe.



segunda-feira, julho 03, 2006

Para atirar à cara dos jornalistas

«A imprensa sem alma»

«Cerca de mil e quinhentos «licenciados» em «Comunicação Social» e seus derivados saem, anualmente, de escolas, institutos e universidades onde aquelas coisas se ensinam. Um concentrado de sonhos e ambições, cedo atirado para o desespero de não encontrar emprego.

Saem com deficiente preparação. Não admira: conheço muitos professores daquilo. Desses muitos, todos são medíocres; arrastaram-se, penosamente, pelas redacções de jornais e revistas, e encontraram encosto no «professorado» ou nas assessorias de Imprensa. Bernard Shaw disse, com lúcido sarcasmo: «Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina». O resultado é o que se vê. Com as excepções a confirmar a regra, o jornalismo português não é mau - é péssimo. E as excepções correspondem àqueles e, sobretudo, àquelas, que foram para o ofício movidos pelo fulgor da paixão, a que adicionaram vontade, conhecimento - e a teimosia de fazer diferente.

Há anos, uma precipitada jornalista do «Diário de Notícias» quis saber os motivos que me haviam impelido ao jornalismo profissional. «O espírito de ser útil», respondi. E, também, a circunstância de o meu pai ter fundado jornais («Diário Popular» e «Diário Ilustrado»), e de aos jornais («A Voz» e «O Século», foram o primeiro e o último onde trabalhou) ter consagrado a parte mais estelar da sua vida.

A rapariga ficou surpreendida com a afirmação, e talvez a tomasse como impetuosidade de quem tem por hábito dizer o que pensa. Mais espantada a deixei quando lhe disse que estivera dez anos em «O Século» (de onde fora despedido por motivos políticos) e vinte e três no «Diário Popular», de lá saindo por incompatibilidade total com a deriva do vespertino. «E lá permaneceria, acaso as coisas não se houvessem alterado», disse. E perguntei: «E você?» Logo ela: «Estarei no ‘Diário de Notícias’ até arranjar uma assessoria».

Nasci num lençol de papel impresso. E conheci e trabalhei com o que de melhor existia na Imprensa da época. Quando nomeio os que deram a fisionomia ética e estética a essa componente fundamental da cultura portuguesa, não o faço por nostalgia. É um imperativo moral e uma espécie de reparação ao triste esquecimento a que esses homens foram ostensivamente votados. A memória das Redacções passa pela exigência de se lutar contra o esquecimento, o qual participa de um muito mais vasto projecto ideológico conservador.

Harrison Salisbury, que foi um dos maiores jornalistas ocidentais e uma assinatura de prestígio no «The New York Times», respondeu, certo dia, a um moço que lhe perguntara como poderia ser jornalista. «Percorra a Bronx, vá ao Harlem, caminhe por Queens. Assista a alguns julgamentos. Observe os hospitais públicos. Analise o comportamento social dos sindicatos. Fale com os polícias das esquadras dos bairros. Mas, sobretudo, goste de pessoas». Frases como estas deviam figurar em todas as Redacções. Aqui se contém a essência primeira do jornalismo. E é uma lição de tudo.

Já falei, em crónica anterior, da fúria acrítica e irracional que varre a Imprensa. O Mundial da Alemanha converteu-se na dimensão bufa de uma nova Aljubarrota. «A Bola», fundado pelo tarrafalista Cândido de Oliveira, titulava, na segunda-feira, a primeira página, com esta bizarria: «Heróis da Resistência», saltando, airosamente, sobre o significado profundo da expressão. Tudo é permitido. A razão, o bom senso e o bom gosto sofrem atropelos. O processo de imbecilização do país prossegue impante e impune. Todavia, qual for o resultado, a ressaca vai atirar os portugueses para o grau mais baixo da ciclotimia.

De uma maneira geral, os jornais portugueses são todos iguais, com notícias iguais, títulos semelhantes, precaucionistas, má prosa, vocabulário rudimentar, comentadores sem rasgo, preguiça na pesquisa, carência de criatividade, ausência de originalidade editorial. Os jornalistas não saem das Redacções, servem-se da net e do telefone, de meia dúzia de ideias feitas.

Chega-se ao absurdo de se publicar textos de acontecimentos internacionais, em narrativas compostas na Redacção, mas firmadas como se o jornalista estivesse no local. Há redactores que nunca, jamais, em tempo algum saíram em busca da notícia, ou na procura do desenvolvimento de uma informação dada pelos telejornais. Aparecem, nas primeiras páginas (não se deve dizer «capa», «capa» é de revista; «primeira página» é de jornal), chamadas para factos ocorridos quase vinte e quatro horas antes!

O espaço gasto em inutilidades atinge as raias do abstruso. E os custos de produção são caríssimos, exactamente porque há manifestamente um subaproveitamento das capacidades dos jornalistas. Diariamente, adquiro três (ocasionalmente quatro) jornais. Nos fins-de-semana, sete; quatro dos quais estrangeiros. Faço a comparação. Um desastre. Para nós, é evidente. Depois, a grande falácia da «independência» ideológica. O provincianismo, aqui, só dá para fazer caretas. É defeito o «El Pais» ser, manifestamente, de esquerda moderada; e «El Mundo» abertamente de direita? «The Guardian» defende causas de esquerda, assim como «Le Monde»; e «Le Figaro», de direita. São maus jornais, devido a essas definições? Bem pelo contrário. E outra pergunta: para que servem os «provedores»? São os vigilantes de quê e os curadores de que verdade absoluta ou relativa?

Lastimo ter de dizer isto: que estímulo à inteligência, que provocações à nossa inércia, que propostas indicam esses «comentadores» que enchem, de vacuidades e de necedades, as páginas dos nossos jornais, sobretudo aqueles que se dizem «de referência»?

Onde estão as grandes reportagens, as crónicas, as entrevistas, as notas e os artigos que escapam à vulgaridade e proporcionam, aos leitores, altos momentos de prazer e de reflexão? Onde se debatem as grandes causas e os nobres combates? A quem interessa esta emasculação do jornalismo português?

Faço-lhe, Dilecto, mais algumas perguntas ingénuas: percebeu alguma coisa do que ocorre em Timor? Será verdade que Alkatiri foi armadilhado pelo facto de se opor a uma negociata do petróleo, antagónica dos interesses dos timorenses? As tendências hegemónicas da Austrália, na região, obedecem ao princípio, sempre ambíguo, dos «interesses nacionais», de uma potência que só é grande pela impressionante dimensão do seu território? E quais as relações entre a Austrália e a Indonésia neste conflito?»

Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 3 Julho 2006

sexta-feira, junho 23, 2006

O que está errado neste título?

As notícias do Diário Digital começam a ser um "habitué" neste blog. Esta equipa fantástica de jornalistas consegue estar sempre em cima dos temas quentes da actualidade, que eu muito agradeço. Aqui segue:

CDS-PP desafia PS a acabar com feriados religiosos

«O CDS-PP desafiou hoje a maioria parlamentar do PS a levar a laicidade do Estado até às últimas consequências e acabar com o Bispo das Forças Armadas, com a bênção em inaugurações e com os feriados religiosos. No debate em plenário de projectos sobre o protocolo do Estado, o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Melo, reclamou um lugar de destaque para a Igreja Católica “pelo que representa e pelo que faz em tantas áreas” em Portugal e insurgiu-se contra o “laicismo” do PS.

“Se quiserem ser coerentes com essa visão assim restrita do laicismo não poderão ficar por aqui. Terão também de acabar com as figuras do Vigário Castrense, Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança, equiparado a general de duas estrelas”, declarou.

“Não há outra alternativa. Para não falar dos feriados religiosos, todos eles relativos ao cristianismo, que o Estado supostamente laico manda respeitar e cumprir”, prosseguiu Nuno Melo, questionando também se o PS acabará com as bênçãos em inaugurações.

Insurgindo-se também contra a exclusão, pelo PS, dos descendentes da antiga família real das cerimónias oficiais, o líder parlamentar do CDS-PP afirmou que “a história portuguesa não começou em 1910” e desafiou a maioria socialista a dar nomes republicanos como “Ordem de 5 de Outubro” às ordens de Cristo ou de Santiago.

PS, que já tinha feito a sua intervenção no debate sobre o protocolo do Estado, não respondeu ao desafio feito por Nuno Melo, mas a deputada do Bloco de Esquerda (BE) Ana Drago, comentou ironicamente que o democrata-cristão “diz que vão terminar as prendas de Natal e os ovos da Páscoa”.»

quarta-feira, maio 31, 2006

Brincar ao quarto escuro

"Fechar criança num quarto escuro poderá ser punido por lei". E se for num quarto cheio de luz, já pode ser? Todos os dias temos pérolas destas, é o que vale. A revisão do Código Penal prevê a cobertura de todas as situações de violência física e psíquica, incluindo situações como encerrar uma criança num quarto escuro. Não é brincadeira. Andamos à procura de formas de educação que só passam por satisfazer caprichos e consentir com indícios de desvios de formação? E a pedagogia de dizer "não", também é encarada como "violência psicológica"? É óbvio que todas as pessoas de bom senso querem que os abusos e maus tratos sobre as crianças - e sobre pessoas de todas as idades já agora, desde os doentes mentais aos idosos, mulheres, sem-abrigo - acabem e que, quem pratica tais actos, seja punido.
Mas, e o dever e também o direito ao arrependimento depois de um acto de descontrolo, de uma reacção não premeditada que tenha resultado, infelizmente, numa situação de violência? Penas de um a cinco anos se a prática for exercida sobre cônjuges, menores e pessoas indefesas, dois anos se acontecer em frente a menores. Três a dez anos se houver ofensa grave à integridade física. Aqui a linha é mais ténue, como se percebe.
A violência não vem só das classes baixas e, se quisermos, a violência psicológica não se assiste apenas nas classes altas. Há matizes que não são só sociais, são culturais, são de formação independentemente do status. Há muita gente da alta que é capaz de deixar de rastos uma filha, um filho, uma mulher de tanta pancada, como há muita gente a viver das ajudas do Estado com comportamentos requintados de violência psicológica.
A questão que vale a pena reflectir com esta revisão do Codigo é se a ausência de um pai ou de uma mãe, por vários anos, não se torna numa violência maior para uma criança em crescimento. Se fechar um pai/mãe numa prisão não lhe tira a possibilidade de viver, em consciência, o seu acto.

segunda-feira, maio 29, 2006

Estórias que vendem

"O catolicismo (e o cristianismo, claro) é, lugar-comum, uma religião histórica, no sentido prosaico em que assenta numa história: sucedeu isto e aquilo, Jesus disse isto e aquilo. Qualquer alteração, deturpação ou interpretação heterodoxa dessa história agride ou enfraquece a Igreja, até, ou principalmente, se for fundada e, pior ainda, indiscutível."
Vasco Pulido Valente, PÚBLICO, 28-5-2006

Nenhum livro na actualidade (ou talvez nunca) suscitou uma polémica tão infantil como a que se tem vindo a observar junto dos intelectuais e até, pasme-se, do comum povo mortal. Não li o Código Da Vinci e não o lerei até se acabarem os livros que tenho há tanto tempo em cima da mesa de cabeceira ou que ainda não comprei mas espero vir a ler, porque são referências importantes para o meu desenvolvimento cultural. Vai demorar décadas. Teriam de acabar todos os grandes autores alemães, russos, franceses, ingleses, americanos e sul-americanos, africanos e asiáticos com nome no "hall of fame" da cultura mundial. Que eu saiba Dan Brown ainda não figura nessa lista, apenas se destaca por vender milhões de livros.
Ora o Código Da Vinci não pode ser uma grande obra. Admito que seja uma estória bem contada, com um enredo cativante e daquela intriga que nos faz ficar presos horas a fio até o mistério ser resolvido. Tem todo o mérito, como têm os livros que se levam para a praia, durante o Verão, para entreter enquanto sol faz o seu trabalho sobre as nossas peles tostadas. O Código Da Vinci é um "best seller" antes de o ser. Dan Brown foi pegar numa personagem (que, por acaso funda a maior parte daquilo que deveriam ser os valores da cultura ocidental) para criar um romance, e esta é precisamente a última forma como as pessoas encaram o livro. Como um romance.
Que se saiba a tal estória do código não tem fundamento - histórico - e a única personagem tirada de um contexto real é a de um professor, que por sinal estudou mesmo as obras de Da Vinci e a Gioconda, mas nunca descobriu quaisquer códigos secretos. Pior, nunca foi contactado por Dan Brown para confirmar as teses mirabolantes apresentadas no livro.
Toda esta discussão é absurda e a Igreja só faz mal em reagir negativamente, da mesma forma que os leitores, como Vasco Pulido Valente, caem na falácia de achar que o Código Da Vinci se trata de uma interpretação da vida de Jesus e que daí decorre uma agressão ou um enfraquecimento da fé das pessoas.

quarta-feira, maio 24, 2006

Matar portugueses cotado em Bolsa

Parece que, face ao período homólogo anterior houve uma redução de 50 por cento no assassínio de emigrantes portugueses na África do Sul. "De acordo com o gabinete do secretário de Estado das Comunidades, entre Janeiro e Maio foram assassinados três portugueses em Joanesburgo enquanto no mesmo período do ano passado morreram seis emigrantes", referia hoje notícia da Lusa.
Apesar dos esforços em rentabilizar os assaltos à mão armada, a taxa de eficácia no assassínio de portugueses baixou drasticamente, fenómeno que é explicado pelos empresários do crime por uma oferta cada vez menor de alvos a abater, considerado uma verdadeira "maçada". Os restaurantes e as mercearias sempre foram os locais preferidos para os ataques mas parece que agora terão de virar-se para as lojas de tapetes persas e correctoras de seguros.
O aumento dos preços do petróleo também pode estar por detrás da diminuição do volume de mortos portugueses nos primeiros cinco meses deste ano. A consequência mais provável, de acordo com o relatório, será a redução de custos e de pessoal, prevendo-se que no próximo quadrimestre haja mais 4.800 assassinos sul-africanos desempregados. Na sequência deste anúncio, o ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Malembo Kutumba, já alertou que não vai alargar o orçamento do Rendimento Mínimo Garantido. "Temos de estimular o empreendorismo e a iniciativa individual", afirmou taxativo.

quinta-feira, maio 18, 2006

Umas atrás das outras...

«Homens e chimpanzés tiveram sexo depois da evolução»

"Os antepassados do Homem e do chimpanzé tiveram relações sexuais durante milhares de anos até à separação definitiva das espécies, o que afinal aconteceu há muito menos tempo do que se pensava, revela hoje a revista científica Nature.

Segundo o trabalho, desenvolvido por uma equipa investigadores norte-americanos conduzida por David Reich, da Universidade de Harvard, as duas linhagens separaram-se há 6,3 milhões de anos no máximo, e provavelmente até há menos de 4 milhões de anos o que não os impediu de proceder à troca de genes.

Tal é perceptível em particular ao nível dos cromossomas X (cromossomas sexuais femininos) que, nos chimpanzés e nos humanos, são mais parecidos do que os restantes cromossomas, precisam os cientistas.

O «divórcio» final e definitivo não terá, afinal, acontecido há muito mais do que quatro milhões de anos, o que significa que após terem começado a separar-se, humanos e chimpanzés ter-se-ão ainda cruzado durante mais de um milhão de anos.

Os resultados obtidos neste estudo, segundo os investigadores, põem em causa o estatuto dos hominídeos considerados como os mais antigos ancestrais do Homem, tais como o Saelanthropus Tchadensis (Toumai), que viveu há cerca de sete milhões de anos, o Orrorin Tugenensis, que viveu há seis milhões de anos, ou ainda o Ardipithecus Ramidus, que terá vivido há perto de 5,5 milhões de anos.

O enigma das origens do chimpnazé continua contudo praticamente todo por desvendar, já que contrariamente aos ancestrais do Homem, dos quais há numerosos fósseis, não foi encontrada até hoje qualquer ossada atribuível aos primeiros chimpanzés, à excepção de alguns velhos dentes.

Além disso, a sequenciação completa do genoma do chimpnazé, publicada no ano passado, confirmou que as duas espécies são geneticamente idênticas em 99%."

Ontem foi a ovulação, hoje é a evolução. Durante anos a fio vieram com a conversa de que o homem mordeu o cão. Como se já não bastasse para arrasar a nossa auto-estima, apresentam um estudo que diz que homens e chimpanzés tiveram sexo depois da evolução, durante milhares de anos. Resta saber a evolução de qual das espécies...

Caramba, durante milhares de anos? Estão a dizer-me que eu sou resultado de uma hipotética relação zoófila entre o meu tetra-avô e uma macaca? Eu sei que é difícil encontrar uma química porreira com uma parceira de jeito, mais ou menos engraçada. Lá se vai a teoria da Criação, de uma Eva à imagem daquela pintada por Botticelli. Só de pensar que tudo deve ter começado com a atracção entre um hominídeo e um macaco chamado Tony Ramos, numa relação que durou mais de um milhão de anos, leva-me a ter outra percepção daquilo que hoje entendemos ser uma mulher bonita. Reparem, andámos um milhão de anos a ter sexo com chimpanzés e no ano 2006 nem sequer conseguimos olhar para a amiga gorda daquela que achamos tão gira, e muito menos chegar a vias de facto. Reflictamos sobre isto.

quarta-feira, maio 17, 2006

Saliva fértil

"Aparelho que identifica período fértil chega hoje a Portugal"

A partir desta quarta-feira está à venda nas farmácias um aparelho que permite às mulheres verificar se estão no período fértil. Através do Fetilfacil, as mulheres podem saber qual o melhor período para engravidar.

O Fetilfacil é um sistema microscópico que utiliza a saliva para determinar em que fase se encontra a ovulação. «Basta a pessoa recolher uma gota de saliva, colocá-la no vidro do aparelho e deixar secar durante 15 minutos», explicou a directora de marketing do dispositivo.

«Se aparecerem uns pontinhos e umas bolinhas, a mulher não está em período fértil. Se surgirem poucas folhinhas de palmeiras, está numa fase pouco fértil. Se as folhas das palmeiras forem em número mais elevado, está num período fértil», acrescentou Sara Santos.

Sara Santos disse ainda que o aparelho se assemelha muito a um baton e pode ser transportado de forma discreta na mala. Sem contra-indicações, o Fetilfacil está disponível nas farmácias quatro horas após o pedido e tem um preço recomendado de 69 euros.

Além de indicar o período fértil, o que permite saber qual é a altura ideal para engravidar, Madalena Santos, especialista em Medicina de Reprodução, alerta para o facto do aparelho permitir às mulheres inférteis perceber que algo está errado.

«As mulheres que não conseguem engravidar costumam esperar um ano para consultar um médico. Com este dispositivo, podem aperceber-se de que algo se passa e consultar um especialista mais cedo», concluiu Madalena Santos.


Tudo nesta notícia, divulgada pelo Diário Digital, é caricato. Primeiro, quaisquer sistemas que usem saliva para determinar fases disto ou daquilo soa a abuso. Qualquer dia abordamo-nos assim: "oh filha, posso lamber-te a testa para saber se estás com dor de cabeça?" ou "olhe, desculpe, olhei para si e achei-a tão interessante. Posso dar-lhe um valente beijo para saber se é recíproco?"

Neste caso ainda se torna mais engraçado. Além de secar o cabelo. pôr alguma maquilhagem e escolher a roupa para sair, as mulheres ainda vão fazer os maridos/namorados (ou desconhecidos, quem sabe) esperar mais 15 minutos para saberem se estão no período fértil. Não sou entendido nestas matérias, e até tenho pena, mas fazendo as contas uma mulher não sabe à partida se está ou não no período fértil?

Para identificar que a mulher não está em fase de ovulação o aparelho mostra "pontinhos e bolinhas". Se surgirem "poucas folhinhas de palmeiras", está numa fase pouco fértil. Se as folhas das palmeiras forem "em número elevado", enganou-se e foi parar ao Brasil.

Nem sequer vou fazer comentários em relação ao facto de ser um aparelho que funciona com saliva, com forma de baton e ter "um preço recomendado de 69 euros"... Porque não 70 euros, que raio?!

quinta-feira, maio 04, 2006

Abaixo o poder da Igreja

A Igreja só pode existir se não tiver poder. Melhor, a Igreja que assim se chama como actualização do Evangelho de Jesus, só faz sentido se for desprovida de qualquer poder, se não puder colocar crucifixos nas escolas, se não beneficiar de Concordatas com o Estado, se não for uma autoridade moral.

Pode parecer chocante este discurso, mas não é. Quem foi Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, senão aquele que apresentou um projecto contra todo o poder, contra todos os "pactos de regime" que os poderes estabelecem entre si para oprimir mulheres e homens de todos os tempos? Jesus foi, precisamente, o modelo de humanidade e entrega que chamou a atenção de todos em relação à cegueira de nos deixarmos reger por leis escritas pelos que detêm a chave da cidade, a chave dos templos e dos cofres. Dando a vida.

A Aliança que Jesus estabeleceu foi com as mulheres e homens frágeis e indefesos, com os pobres e os excluídos. Não foi com os líderes religiosos e príncipes dos sacerdotes, nem com o rei Herodes, nem mesmo com o governador romano de turno Pôncio Pilatos. E essa é uma realidade que existia então como existe hoje, passados dois mil anos.

Por isso, em vez de nós - Igreja - nos preocuparmos com os caminhos que as sociedades decidem tomar para viverem melhor e mais livres, devemos preocupar-nos em sermos testemunho para os pobres, os que não têm voz, os ignorados e desprezados, os abusados e violados na sua dignidade. Tirem-nos - a nós, Igreja - todos os privilégios e saberemos executar melhor a nossa missão.

quinta-feira, abril 27, 2006

No malhar é que está o ganho

Começo o dia bem disposto até que abro o Público e leio a crónica do Pacheco Pereira "Quem paga a crise?". Assim não há ânimo que valha, caramba! Citam-se os relatórios da OCDE e do Banco Mundial e conclui-se que estamos pior, que o défice é superior ao previsto, que os tempos serão ainda mais difíceis, que que que. Os resultados são maus e o dito cronista faz questão de malhar no governo de José Sócrates.
Quem me conhece sabe que não sou propriamente fã deste político sexy, nem tão pouco desta suposta ala esquerda do Parlamento. Aliás, nem desta nem de outras. Mas o facto que me enerva é que passou um ano desde que este Executivo assumiu funções. Um ano! Ninguém consegue fazer nada deste país num ano! O que é que passa pela cabeça de um tipo como o Pacheco Pereira quando se aproxima a data de escrever a sua crónica semanal? "Deixa ver, hmm, vou falar de medidas interessantes a aplicar ao nível dos incentivos à produtividade? Não, vou antes mandar uns bons bitaites acerca da forma como os portugueses devem assumir um compromisso com o país, no sentido de estimular a economia, provando como o Estado pode criar formas de premiar os que têm melhores desempenhos? Também não. Olha, já estou a ficar com uma dor de cabeça dos diabos, é mais fácil olhar para os acontecimentos dos últimos dias e atirar tudo contra o Governo. Eu só tenho de descarregar a minha bílis e os gajos que se justifiquem, e é se quiserem!"
Amigo, camarada, palhaço, é óbvio que quaisquer medidas (boas ou más, depende do critério e do quão fundo está entranhada a partidocracite) levam tempo a surtir efeito, até que se notem mudanças nos números, nos indicadores, nos défices mas, sobretudo, nas mentalidades de quem os vê, de quem os analisa e de quem os vive, no dia a dia.
Os erros cometidos por José Sócrates todos nós podemos apontar, todos os tiros no pé, todos os ditos por não dito, todas as "inverdades". É fácil, basta ligar a TV, ler os jornais, assistir à apresentação pública dos "grandes projectos estruturantes". Eu sei fazer isso, toda a gente sabe. É até o que sabemos fazer melhor, sentados na esplanada com os amigos a beber um café. O que pouca gente sabe (e parece claro que Pacheco Pereira não quer entrar neste pequeno grupo) é apontar a si próprio como bode expiatório da nulidade que este país produz (ou deixa de produzir) diariamente.

sexta-feira, abril 21, 2006

Vergonha das vergonhas

Passaram ontem 500 anos do assassínio de cerca de 4 mil judeus em Lisboa, pela altura da Páscoa. Da comunidade católica, cristã, nem uma palavra. E na chamada sociedade civil, muito poucas, sem expressão.
Vergonhoso!

quarta-feira, abril 19, 2006

Homenagem ao fotógrafo


Não podia deixar de publicar este "belo" cartão de visita de um grande fotógrafo. João Barata

segunda-feira, abril 10, 2006

"Tá gente...!"

Há uma dúvida que me assalta quando vou a uma casa de banho pública e preciso mesmo de ir àqueles compartimentos fechados. Se a porta está fechada, normalmente bato. Do outro lado respondem: "Tá gente!" O primeiro problema coloca-se aqui (além do facto de a necessidade agudizar)... Quando respondem que "está gente", será que pressupõe mais do que uma pessoa? Se sim, que raio estará um grupo - já que um grupo é correspondente a dois ou mais indivíduos - a fazer num espaço tão exíguo? Ainda se se tratasse de um WC de mulheres, já se sabe do costume de irem acompanhadas. Não, não é um comentário machista, trata-se da constatação de uma realidade, a tratar num futuro post.

E se não, se de facto se encontra apenas um tipo, só, por que diz que "está gente", em vez de "estou cá eu"? Quando se utiliza a primeira fórmula, seja quem for que está a ocupar o compartimento, fala como se estivesse cá fora a responder a si próprio... Ou melhor, nega a sua individualidade. Compreende-se que a posição de sentado na sanita não seja propriamente uma imagem que dignifique ninguém, mas não parece justo chegar a este extremo!

Há também os que tossem, como que se escusando a verbalizar qualquer palavra, evitando o risco de ser reconhecido mais tarde quando regressa à sala do restaurante, ou do bar, ou da discoteca. Deste lado: "toc toc". Do outro: "cof cof". É verdade que o acto de tossir contrai os músculos abdominais e pode ajudar, assim, a desempenhar - ou desempanar - melhor a função para se despachar mais depressa...

Depois há os que não dizem nada. "Está alguém?" Resposta: "..................". "Com licença?!" Resposta: "............." Depois de muito forçar a porta para perceber se ficou inexplicavelmente trancada, por dentro, lá ouvimos um punzito ou o desenrolar do papel higiénico e percebemos, de facto, que "está gente". Se bem que por vezes não se compreende como é que "gente" faz ruídos daqueles, mas enfim.

Por fim, os que, enquadrando-se em qualquer dos exemplos dados acima, teimam em não sair da retrete até perceberem que ninguém os vê, ninguém os ouve. Um verdadeiro acto de espionagem. Entram e saem sem que se dê conta do que lá foram fazer, um desprezível cocó!

Para breve prometo focar o tópico casas de banho públicas, na óptica da infra-estrutura pré e pós utilização, o que dará concerteza muito que escrever. Grato pela atenção e, se me dão licença, depois disto só posso puxar o autoclismo.